Wilson Cano faleceu no dia 03 de abril de 2020 e muitas homenagens foram postadas. Reunimos aqui as principais:

Homenagem - Semana da Economia - IE 08/2020

Beatriz Mioto (@MiotoBeatriz)

9 de ago

Eu sou um pouco relapsa com a divulgação das coisas que eu faço. Mas, nesse caso, por ser uma homenagem ao Cano, meu grande Professor, não poderia deixar de compartilhar. Estou preocupada em manter a compostura, então não esperem muito de mim.

SE20: Wilson Cano: vida e obra

​A Semana da Economia é um evento que busca aproximar o debate econômico da população. Em 2020, por causa da pandemia, toda a programação será realizada de maneira remota, através de lives pelo Youtube no canal do Instituto de Economia da Unicamp e de podcasts no Spotify. Reconhecida como um dos eventos mais tradicionais da Unicamp, a SE é realizada anualmente na semana do dia 13 de agosto, quando se comemora o dia do economista. Carta Citada; Rio de Janeiro, 22 de fevereiro de 2003 Prezado Wilson, Li com grande interesse os seus Ensaios sobre a formação econômica regional do Brasil. Estou convencido de que é essencial que se avance na compreensão do papel que coube ao regionalismo do inusitado fenômeno histórico que engendrou um país tão heterogêneo e tão solidamente unido como é o nosso Brasil. Foi com deleite que li o último capítulo sobre a formação do complexo nordestino. Ao avançar quase sem fôlego na leitura, disse-me, sem falsa modéstia: “Meu Deus, de onde me veio tanta energia para enfrentar uma luta em tantas frentes de batalha?”. Fazendo votos para que você prossiga em seu frutífero trabalho. Receba o abraço amigo de Celso Furtado.

Homenagem - Semana da Economia - IE 08/2020

Link: https://www.youtube.com/watch?v=YKEZCN-COEw&feature=youtu.be

 

Homenagens em Sites, Portais e Blogs

A Associação Brasileira de Pesquisadores em História Econômica lamenta profundamente o falecimento do Prof. Wilson Cano, ocorrida em 3 de abril de 2020, e manifesta sua solidariedade aos familiares, colegas e inúmeros estudantes deste insubstituível pesquisador e professor. Além de sua dedicação abnegada ao ofício, de sua constante força ética e de sua generosidade acadêmica, Cano era um herdeiro crítico da análise cepalina e das questões furtadianas, especialmente das origens e desdobramentos das desigualdades regionais do país.

 

Nascido em São Paulo em 1937, foi professor do curso de Planejamento e Desenvolvimento Econômico da Cepal em São Paulo (1965) e em seguida na Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), onde fundou o Departamento de Planejamento Econômico e Social, embrião do Instituto de Filosofia e Ciência Humanas, que dirigiu entre 1976 e 1980. Permaneceu como professor de cursos da Cepal no Brasil e na América Latina até 1980. Foi um dos principais fundadores da chamada Escola de Campinas, mantendo-se ativamente nas ações de ensino, pesquisa e orientação no Instituto de Economia da Unicamp, bem como participando de maneira incisiva nos debates sobre os impactos da globalização na América Latina, a desindustrialização do país e a profunda crise econômica recente. Também defendia arduamente a universidade pública e a conservação de condições dignas para a carreira docente. Era exigente com seus alunos e incansável no seu labor, mas também solidário e bondoso, como são os grandes mestres.

 

Em sua larga e profícua produção acadêmica, suas obras principais seguem sendo cruciais para a análise da formação do capitalismo no Brasil, de sua industrialização e da origem e desenvolvimento dos desequilíbrios regionais no país, em uma perspectiva crítica que combina de maneira ímpar economia, geografia e história. Os estudos sobre complexos regionais e seus desdobramentos econômicos e sociais remetem à sua obra monumental “Raízes da concentração industrial em São Paulo” (1977) e à ideia seminal de “complexo cafeeiro”, largamente empregada por diversos pesquisadores. Quando pensamos o grau de concentração da indústria brasileira, associado ao papel determinante que teve o estado de São Paulo na integração do mercado interno e na construção das desigualdades, necessariamente temos que passar por “Desequilíbrios regionais e concentração industrial no Brasil 1930-1970” (1985) e “Desconcentração produtiva regional do Brasil 1970-2005” (2007). Abarcando um amplo espectro temporal, do final do século XIX às décadas recentes, os três livros reúnem um grande esforço de síntese de um intelectual comprometido com o desenvolvimento econômico, condição indispensável para a justiça social do país. Sua militância intelectual e a preocupação em compreender os obstáculos ao desenvolvimento cruzaram fronteiras e resultaram no livro “Soberania e política econômica na América Latina” (1999), fruto de uma hercúlea pesquisa realizada com apoio da CEPAL.

 

Suas aulas e orientações no Instituto de Economia formaram uma geração de professores e pesquisadores engajados na reflexão sobre o desenvolvimento econômico e social brasileiro. Muitos de seus alunos e orientandos, provenientes de vários estados brasileiros, refletiram com ele sobre a formação econômica e a dinâmica histórica de suas regiões e, não pouca vezes, formaram grupos de pesquisa especializados na questão. Assim, seu pensamento continua presente nas diversas teses defendidas sobre formação econômica e desenvolvimento regional espalhadas de Norte a Sul do país. Os espaços de debate da ABPHE – congressos, livros e revista –, foram e continuam sendo enriquecidos pelo pensamento de Wilson Cano, que tem a marca da argumentação racional, crítica e interdisciplinar, orientada pela defesa de um projeto de desenvolvimento econômico que permita um país mais justo e solidário.

 

Esse foi, é e será o legado do nosso Mestre Wilson Cano.

Associação Brasileira de Pesquisadores em História Econômica

Link: http://www.abphe.org.br/noticia/nota-de-pesar-pelo-falecimento-do-prof-wilson-cano

Wilson Cano, professor titular da Universidade de Campinas (Unicamp), morreu no dia 3 de abril, aos 83 anos em decorrência de um infarto. Seu corpo foi sepultado no dia 4, em Campinas. Casado com Selma Maria Schwarzer Cano, ele deixa três filhos e seis netos.

 

Cano era consultor da FAPESP desde 1985, tendo sido membro do Conselho Superior da Fundação de 1990 a 1997.

 

Formado em Economia pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, em 1962, e doutorado em Ciências Econômicas pela Unicamp, em 1975, foi chefe do departamento de Economia do Instituto de Filosofia e Ciências Humanas entre 1975 e 1976. Em 1984, participou da organização do Instituto de Economia da universidade.

 

Pesquisador Emérito do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq), Cano foi autor de mais de 40 artigos e 20 livros sobre economia, com destaque para análises do processo de industrialização brasileiro.

 

“Wilson Cano foi um pesquisador exemplar. Seu livro Raízes da Concentração Industrial em São Paulo [Unicamp] é um clássico. Revela, como poucos outros trabalhos, a relação entre a economia cafeeira, a indústria e a urbanização. Será sempre uma leitura obrigatória para quem quiser entender a economia paulista e o Brasil do início do século 20”, afirma Carlos Américo Pacheco, diretor-presidente do Conselho Técnico-Administrativo da FAPESP.

 

Cano também assinou artigos em duas obras contempladas com o Prêmio Jabuti em 2007 – Latinoamericana: Enciclopédia Contemporânea da América Latina e do Caribe (Boitempo) e Celso Furtado e o Século 21 (Manole). Em 2008, recebeu o Prêmio Brasil de Economia, conferido pelo Conselho Federal de Economia, pelo livro Desconcentração Produtiva Regional no Brasil (Unesp).

Agência FAPESP

Link: http://agencia.fapesp.br/wilson-cano-professor-titular-da-unicamp-morre-aos-83-anos/32899/

Acabamos de receber, com pesar,a notícia do falecimento do Prof. Wilson Cano (Instituto de Economia da Unicamp) no dia de hoje, 3 de abril de 2020, em São Paulo.

 

Wilson Cano foi sócio-fundador e Conselheiro do Cicef, além de grande colaborador do Centro e da revista Cadernos do Desenvolvimento, tendo sido um de seus entrevistados.

 

Aos familiares e amigos próximos nossos sinceros sentimentos.

Centro Celso Furtado

Link: http://www.centrocelsofurtado.org.br/interna.php?ID_M=1916

É com imensa consternação que o Cofecon comunica o falecimento do Economista Wilson Cano, que deixou um legado imensurável, tanto em termos acadêmicos quanto em participação no enfrentamento dos grandes problemas nacionais. Graduado em Ciências Econômicas pela PUC/SP (1962) e doutor pela Unicamp (1975), também em Ciências Econômicas, foi professor titular dentre os mais destacados da história do Instituto de Economia da Unicamp, tendo participado da formulação e estruturação dos seus cursos e programas de pesquisa. Foi membro vitalício do conselho curador da Fundação Economia de Campinas e consultor da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo. Sua obra alcança a Ciência Econômica em geral, com ênfase nas áreas de Desenvolvimento Econômico, Economia Brasileira, Economia Latino-americana e Economia Regional.

 

O presidente do Cofecon, Antonio Correa de Lacerda, expressou seu pesar pelo falecimento do Economista: “Estamos todos abalados. A perda de Wilson Cano é especialmente triste em tempos tão sombrios, como agora. Sua combatividade em prol da Nação fará muita falta”.

 

Dentre as diversas dignidades acadêmicas recebidas, o Cofecon teve a oportunidade de homenageá-lo com o Prêmio Brasil de Economia de 2009, pelo livro Desconcentração Produtiva Regional, e como Personalidade Econômica do ano 2013.

Cofecon

Link: https://www.cofecon.org.br/2020/04/03/cofecon-lamenta-morte-do-economista-wilson-cano/

O Conselho Regional de Economia 5ª Região Bahia lamenta profundamente o falecimento do economista Wilson Cano, profissional que deixa um grande legado tanto na academia, quanto na sociedade. Um dos criadores do Instituto de Economia da Unicamp, o professor foi chefe do departamento de Economia do Instituto de Filosofia e Ciências Humanas da Universidade Estadual de Campinas.

 

Graduado em Ciências Econômicas pela PUC/SP (1962) e doutor pela Unicamp (1975), também em Ciências Econômicas, foi professor titular dentre os mais destacados da história do Instituto de Economia da Unicamp, tendo participado da formulação e estruturação dos seus cursos e programas de pesquisa. Foi membro vitalício do conselho curador da Fundação Economia de Campinas e consultor da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo. Sua obra alcança a Ciência Econômica em geral, com ênfase nas áreas de Desenvolvimento Econômico, Economia Brasileira, Economia Latino-americana e Economia Regional.

 

Em 2016, a convite do Corecon-BA, Wilson Cano participou do lançamento do livro Reflexões de Economistas Baianos, ministrando uma palestra com reflexões geopolíticas que configuravam o cenário econômico naquele ano. “O Brasil perde mais um grande economista, formador de tantos profissionais, que contribuiu de forma imensurável com seu pensamento, suas pesquisas e obras publicadas. Externamos nossos sinceros sentimentos aos familiares e amigos por essa triste perda”, declarou o presidente do Corecon-BA, Marcelo Santos.

Corecon-BA

Link: http://www.corecon-ba.org.br/corecon-ba-lamento-falecimento-do-economista-wilson-cano/22168/​

O Corecon-MG lamenta profundamente o falecimento do economista Wilson Cano, ocorrido nesta sexta-feira, dia 3 de abril, e se solidariza com o luto de seus amigos e familiares.

 

Graduado em Ciências Econômicas pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP) e doutor pela Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) na mesma área, Wilson foi um dos criadores do Instituto de Economia da Unicamp, do qual foi professor chefe entre 1975 e 1976. Além disso, foi membro vitalício do conselho curador da Fundação Economia de Campinas (Fecamp), consultor da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp) e pesquisador emérito do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq). Em 2017, esteve em Minas Gerais participando do XXII Congresso Brasileiro de Economia (CBE), organizado pelo Corecon-MG.

 

O economista deixa um enorme legado em termos de produção acadêmica, tendo publicado uma série de livros sobre economia, com destaque para análises do desenvolvimento econômico brasileiro e da economia latino-americana e regional. Entre as suas principais obras, encontram-se Introdução à economia: uma abordagem crítica (1988) e Ensaios sobre a formação econômica regional do Brasil. Recentemente, lançou um site com seu acervo, que pode ser acessado aqui.

 

Corecon-MG

Link: http://corecon-mg.org.br/falecimento-wilson-cano/

Morre o professor e pesquisador Wilson Cano

Cano veio à Unicamp em 1968, convidado pelo reitor Zeferino Vaz. Desde então, dedicou-se em tempo integral à carreira, tendo publicado diversos livros

Por Francisco Lima Neto

    

Morre o professor e pesquisador Wilson Cano

O professor Wilson Cano, pesquisador emérito do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) e um dos criadores do Instituto de Economia da Unicamp, morreu nesta sexta-feira (3), aos 83 anos. Formado em economia pela PUC de São Paulo, Cano veio à Unicamp em 1968, convidado pelo reitor Zeferino Vaz. Desde então, dedicou-se em tempo integral à carreira, tendo publicado diversos livros, principalmente sobre industrialização Brasileira.

Em nota, a direção do Instituto de Economia lamentou a morte do professor:

“É impossível exagerar a sua importância na criação e consolidação do nosso Instituto, além de seu papel fundamental na história da Unicamp. Formador de várias gerações de pesquisadores e professores Brasil afora, o prof. Wilson é figura maior na trajetória da qual somos todos herdeiros.

Combatente das melhores causas até o fim da vida, fica para todos nós seu exemplo de dedicação ao Brasil e à Universidade, sua trajetória ímpar de intelectual e homem público, e os ensinamentos de sua vasta obra e incontáveis aulas ministradas. À família e amigos, o IE manifesta os mais profundos sentimentos neste momento difícil.

O enterro aconteceu neste sábado, às 11h, no Cemitério Parque Flamboyant. O professor deixa esposa, três filhos e seis netos.

 

 

RAC - Campinas - Francisco Lima Neto

Link: https://correio.rac.com.br/_conteudo/2020/04/campinas_e_rmc/922062-morre-o-professor-e-pesquisador-wilson-cano.html

Morre aos 83 anos Wilson Cano, economista da Unicamp

O economista Wilson Cano, professor da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), morreu na sexta-feira, 3, aos 83 anos. Ele era pesquisador emérito do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) e um dos criadores do Instituto de Economia da Unicamp.

 

Natural da capital paulista, formou-se em economia na Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP) em 1962. Chegou à Unicamp em 1968, conforme publicação na página da universidade. Foi diretor do Instituto de Filosofia e Ciências Humanas (IFCH) da Unicamp até 1980.

 

Participou do processo de desmembramento do Departamento de Economia e Planejamento Econômico do restante do IFCH, dando origem em 1984 ao Instituto de Economia (IE) da Unicamp. Em 1986, Wilson Cano foi aprovado no concurso para professor titular e em 1990 participou da fundação do Centro de Estudos de Desenvolvimento Econômico (Cede), que acabou dirigindo entre 1991-1994 e 2001-2005.

 

Aposentado em 2008, Wilson Cano continuou atuando como professor colaborador da universidade. Sua obra inclui artigos e livros sobre industrialização e subdesenvolvimento econômico brasileiro e latino-americano.

 

Em nota, a direção do Instituto de Economia lamentou a morte do professor:

 

"É impossível exagerar a sua importância na criação e consolidação do nosso Instituto, além de seu papel fundamental na história da Unicamp. Formador de várias gerações de pesquisadores e professores Brasil afora, o prof. Wilson é figura maior na trajetória da qual somos todos herdeiros. Combatente das melhores causas até o fim da vida, fica para todos nós seu exemplo de dedicação ao Brasil e à Universidade, sua trajetória ímpar de intelectual e homem público, e os ensinamentos de sua vasta obra e incontáveis aulas ministradas. À família e amigos, o IE manifesta os mais profundos sentimentos neste momento difícil. Recebam nosso abraço fraterno e toda nossa solidariedade."

 

Jornal Estado de Minas

Link: https://www.em.com.br/app/noticia/economia/2020/04/04/internas_economia,1135749/morre-aos-83-anos-wilson-cano-economista-da-unicamp.shtml

Wilson Cano (1937-2020): Mestre, Orientador, Mentor

 

Aprendi História Econômica do Brasil com o Professor Wilson Cano. Em passagem do seu curso, apontou, entre outras lacunas do conhecimento sobre a economia brasileira, ninguém saber por qual razão os bancos privados mineiros se sobressaíram no País.

 

Como único mineiro da segunda turma de mestrado do Departamento de Economia do IFCH-UNICAMP, a pergunta parecia ter sido dirigida a mim. Cumprido os créditos, não tive a menor dúvida: convidei-o a ser meu orientador para pesquisar e escrever uma Dissertação de Mestrado a respeito daquela pergunta-chave para entendimento do sistema financeiro nacional.

 

Com muita honra para mim, ele, então Diretor do IFCH (1976-1980), além de manter suas tarefas docentes, aceitou! Sempre foi assim: um Mestre prestativo, simples, deixando tudo às claras. Todos os capítulos entregues eram lidos de imediato e devolvidos com anotações manuscritas pertinazes, inclusive para eu jamais usar adjetivos em texto técnico, só dizer coisas substantivas. Fiz a pesquisa de campo em 1977 e fui o primeiro aluno da turma a defender sua Dissertação no ano seguinte.

 

Deu as dicas necessárias para um pesquisador inexperiente, inclusive uma carta-de-apresentação. Eu, ingênuo, a entreguei na portaria do Banco do Estado de Minas Gerais. O porteiro deu uma espiada e me perguntou: “Pesquisa de que? Consumo de que?!”

 

Aprendi no Brasil importar sim a rede de relacionamentos pessoais. Com base no “filho de quem”, “sabe com quem você está falando”, “sou amigo do concunhado de sua sobrinha”, conseguia chegar às cúpulas dos bancos. Pouco sabiam de suas histórias. Velhos funcionários me narravam muito mais. Testava hipóteses nas entrevistas.

 

Meu Orientador, inclusive no doutorado, dizia-me: pesquise os Relatórios dos Presidentes da Província. Entendi: eram os governadores. Fui atrás no Arquivo Público de Minas, em Belo Horizonte, e na Biblioteca Pública da Praça da Liberdade. Depois, “peguei o jeito” e fui atrás dos Relatórios de Administração dos principais bancos. Visitei o Museu do Banco de Crédito Real de Minas Gerais, fundado em 1889, ainda no reinado de D. Pedro II, em Juiz de Fora. De lá foi um pulo para a biblioteca do Ministério da Fazenda na Avenida Antônio Carlos no centro do Rio de Janeiro.

 

Lá consegui até crônicas sociais e obituários sobre as vidas dos banqueiros, fora toda a coleção da Revista Bancária Brasileira – RBB, fundada em 1933. Nos anos 70s, nem se sonhava com internet. Tudo estava em papel. O Professor Wilson Cano conseguiu me colocar em uma pesquisa sobre Concentração Regional no Brasil. Foi a primeira assinatura na minha recém-tirada Carteira de Trabalho.

 

Com a ajuda-de-custo, conseguia convencer as bibliotecárias a me emprestar os relatórios imensos para xerocar em copiadora na rua. A biblioteca era no último andar. Descia carregando tudo para tirar os xerox. Empoeirado, voltava para casa com sensação de ser um trabalhador manual… A vida é difícil. O Professor me ensinou a lidar com ela.

 

Antes mesmo de defender minha tese – os bancos mineiros eram os maiores do Brasil porque não eram mineiros, mas sim nacionais: os primeiros a transpor a fronteira estadual e ter rede de agências nos principais centros urbanos brasileiros –, consegui via indicação de colegas um emprego no IBGE no Rio de Janeiro. Quando minha dissertação de mestrado, inscrita pelo meu Orientador, ganhou menção honrosa no Prêmio BNDES, ele me disse para não me acabrunhar: era a minha a primeira de História Econômica a conseguir alguma menção. Ele se orgulhava de a ter orientado.

 

Em 1985, resolvi fazer o doutoramento em Economia na UNICAMP. Como na época do mestrado, era o lugar onde eu não teria de ser aluno de economistas serviçais da ditadura militar brasileira.

 

De volta à Campinas, o Professor Wilson Cano, tendo assinado minha Carta de Apresentação para o doutorado, logo me perguntou: “qual é seu interesse na vida acadêmica?” Disse-lhe: “Meu projeto é ser um professor e intelectual público como o senhor: com postura digna e militante, defendendo seus pontos de vista com análise de fatos e dados”.

 

Ele me disse, tempo depois, ter surpreendido os colegas com sua indicação para eu ser contratado como professor do recém criado IE-UNICAMP. Eles achavam por eu ser muito militante, no Rio de Janeiro, não abandonaria a vida prazerosa da antiga corte para morar no interior. Lá, junto a inúmeros amigos, certamente teria mais vida pública. Porém, talvez tivesse uma formação intelectual menos profunda, menor dedicação à vida acadêmica e, afinal, à militância virtual ou presencial em todo o país.

 

O Professor Wilson também foi o avalista do meu aluguel em Barão Geraldo. Foi determinante na escolha do local da minha moradia: “Sua vida não girará em torno da Universidade? More próximo a ela”. Ganhei pelo menos duas horas por dia, desde 1985, quando deixei de enfrentar os engarrafamentos de ida-e-volta ao trabalho no Rio.

 

Na defesa da tese de doutorado, meu eterno Orientador me fez um elogio inesquecível para um simples orientando: “Eu aprendi tudo sobre bancos com o Fernando”. Como professor, seus três filhos educadíssimos foram excelentes alunos em meus cursos. Selma e ele os educaram muito bem!

 

Essas recordações pessoais são minha forma de sublimar o luto pela perda de seu apoio presencial sempre simpático, agradável, gentil, solidário. Adorava uma conversa-de-bar, dançar e jogar futebol. Em sua casa tem um campinho para jogar com filhos e amigos.

 

Não cabe apenas o exaltar ou enaltecer como ele foi sublime para mim. Nunca será demais o glorificar. Ele se sobressaiu como líder nato, fundador e dirigente do IE-UNICAMP em diversos cargos. Ele merece ser reverenciado pela retidão moral ou por seus feitos intelectuais.

 

Sua tese de doutoramento, defendida em 1975, e publicada em 1977, “Raízes da Concentração Industrial em São Paulo”, tem dupla dedicatória: “À minha mãe” e “Para meus alunos e colegas da UNICAMP”. Demonstra sua generosidade.

 

Antes dela, não tinham sido examinadas as raízes fundamentais do processo de concentração industrial em São Paulo nem seu papel na dinâmica inter-regional do país. Como ele demonstrou, “as origens do problema remontam, efetivamente, ao início do século XX e não, como se pensa correntemente, ao pós-Crise de 1929, quando muda o padrão de acumulação”.

 

Ele não só analisa apenas a atividade cafeeira em São Paulo, antes de 1930, mas verifica também o desenvolvimento de relações capitalistas de produção então vigentes e a formação de um complexo capitalista cafeeiro com diversas frações de capital, inclusive o industrial. Naquele período, o Estado adquire as condições para consolidar sua posição de liderança na industrialização brasileira após a Grande Depressão.

 

Ao contrário das demais regiões, São Paulo contou com elementos fundamentais para sua expansão diversificada e concentradora. Tinha avançadas relações capitalistas de produção, amplo mercado interno e, desde muito cedo, uma avançada agricultura mercantil, mesmo se excluído o café, além de um incipiente setor de bens de produção.

 

Esse método de análise “de dentro para fora” rompeu com a visão marxista vulgar do “imperialismo”, seja o externo, como o centro fosse determinante de todos os desenvolvimentos na periferia, seja o interno, como São Paulo fosse um sugador dos recursos naturais e humanos dos demais estados brasileiros. Muitos “intelectuais da província” não apreciaram essa reviravolta no olhar sobre a desigualdade regional.

 

Deixou claro a expansão industrial de São Paulo ter se dado pelo dinamismo de sua própria economia e não, como se poderia pensar, pela apropriação líquida de recursos provenientes da “periferia nacional”. A “periferia” perdeu o “jogo”, tanto pela sua débil integração ao comércio internacional quanto, e principalmente, por não ter desenvolvido relações capitalistas de produção mais avançadas e, por isso mesmo, não ter diversificado suficientemente sua estrutura econômica.

 

Mas ele demonstrava os agentes econômicos internos, com um projeto nacional bem planejado, poderem provocar o desenvolvimento socioeconômico a partir de forças produtivas internas, embora sem qualquer ideia de autonomia absoluta. Teriam de ter iniciativas de empreendedores e apoio de um Estado nacional não submisso à potência externa.

 

Infelizmente, o Professor Wilson Cano morreu lamentando a Era do Neoliberalismo ter dominado “corações e mentes” de muitos colegas economistas. Houve drástica mudança qualitativa e quantitativa da formulação da política econômica e dos estudos e pesquisas, em termos gerais, setoriais e regionais, a partir de fins da década de 1980.

 

A crise da dívida, a inflação crescente, os muitos planos de estabilização, a guerra fiscal e o poder e o desenvolvimento local dominaram a produção intelectual. A maior parte dos economistas e dos acadêmicos abandonou suas preocupações de longo prazo, de crescimento e desenvolvimento, tornando-se “curtoprazistas”, centrando sua produção sobre o câmbio, os juros, a inflação, a região e a cidade competitiva.

 

A partir da década de 1990, sobressaíram, em especial, os estudos sobre finanças públicas, metas de inflação, produto potencial e equivocadas análises sobre o PIB municipal, onde pontificaram a modelagem e uma alta dose de estéril econometria. Para isso, dizia, “foram muito importantes mudanças verificadas no Estado, mormente no desenho e no estreito manejo de sua política econômica em sentido neoliberal”.

 

Cabe aos seus inúmeros discípulos continuar sua luta pela mudança neste estado de coisas prejudiciais ao bem-estar social no Brasil.

 

 

Fernando Nogueira Costa

Link: https://fernandonogueiracosta.wordpress.com/2020/04/04/wilson-cano-1937-2020-mestre-orientador-mentor/​

Morre aos 83 o economista Wilson Cano, da Unicamp

Professor foi um dos fundadores do Instituto de Economia da universidade

Ivan Martínez-Vargas

Morreu na última sexta-feira (3) aos 83 anos em Campinas o economista Wilson Cano, professor e um dos fundadores do Instituto de Economia da Unicamp (https://www1.folha.uol.com.br/poder/2016/03/1750194-crise-politicainviabiliza-retomada-da-economia-afirmam-especialistas.shtml). Ele tinha câncer.

Cano se formou em economia pela PUC-SP (Pontifícia Universidade Católica de São Paulo) em 1962 e ingressou na Unicamp em 1968 a convite do então reitor, Zeferino Vaz, que havia sido nomeado por Ademar de Barros.

O economista terminou seu doutorado no então departamento de economia do Instituto de Filosofia e Ciências Humanas da Unicamp, em 1975, com a tese "Raízes da Concentração Industrial em São Paulo".

Foi chefe do departamento entre 1975 e 1976 e, na sequência, direto do instituto até 1980. No ano seguinte, tornou-se livre docente.

Em 1984, foi um dos fundadores do Instituto de Economia da Unicamp, onde permaneceu como professor titular de 1990 até a aposentadoria, em 2008. Depois, continuou como professor-colaborador da universidade.

Em 2013, foi membro da Comissão da Verdade e Memória da Unicamp (https://www1.folha.uol.com.br/poder/2013/10/1357215

-unicamp-anuncia-criacao-de-comissao-da-verdade.shtml) criada para investigar violações dos direitos humanos ocorridas na universidade durante a ditadura militar.

Na área acadêmica, Cano dedicou-se especialmente ao estudo da industrialização e a temas como subdesenvolvimento econômico do Brasil e da América Latina. Em 2008, recebeu prêmio de Pesquisador Emérito do Cnpq (Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico).

O economista e professor Wilson Cano durante entrevista em seu escritório na Unicamp, em 2008, ano em que se aposentou.

Em nota, o Instituto de Economia da Unicamp afirma que Cano foi "formador de várias gerações de pesquisadores e professores" do Brasil e "figura maior na trajetória da qual somos todos herdeiros."

 

Ex-diretor-geral da FAO (órgão da ONU para o combate a fome) e , José Graziano da Silva lamentou a morte de Cano.

 

José Graziano da Silva @grazianodasilva

Muito triste pelo falecimento do meu amigo e professor Wilson Cano, além de colega durante todos os meus anos de ⁦⁦@unicampoficial⁩.

Lamento não poder ir dar um ultimo abraço nele

 

 

Jornal Folha de São Paulo

Link: https://www1.folha.uol.com.br/mercado/2020/04/morre-aos-83-oeconomista- wilson-cano-da-unicamp.shtml

Wilson Cano, economista por vocação

A equipe da Fundação Perseu Abramo lamenta profundamente a morte do professor Wilson Cano, ocorrida no dia 03/04. Cano iniciou a carreira como professor e pesquisador na Unicamp em 1969, foi um dos criadores do Instituto de Economia e chefiou o Departamento de Economia do Instituto de Filosofia e Ciências Humanas da Universidade. "Formador de várias gerações de pesquisadores e professores Brasil afora, o prof. Wilson é figura maior na trajetória da qual somos todos herdeiros. Combatente das melhores causas até o fim da vida, fica para todos nós seu exemplo de dedicação ao Brasil e à Universidade, sua trajetória ímpar de intelectual e homem público, e os ensinamentos de sua vasta obra e incontáveis aulas ministradas", destaca a nota de pesar do departamento de Economia.

 

Mesmo após a aposentadoria, Wilson Cano continuou a ministrar aulas, fazer pesquisas e produzir artigos, como professor colaborador. Contribuiu também com o governo do PT em Campinas, entre 2001 e 2004, no mandato de Izalene Tiene, coordenando estudo sobre Urbanização, Economia, Finanças e Meio Ambiente na Região Metropolitana da cidade. Marcio Pochmann, professor da Unicamp e ex-presidente da FPA, se manifestou com pesar: “O professor Wilson Cano, brasileiro incansável, passou pela vida, deixou o legado. Base sólida do pensamento estrutural da Escola de Economia de Campinas, sucessor de Celso Furtado. Companheiro de todas as lutas. De quem acredita que outro Brasil tão necessário quanto possível.”

 

Em entrevista para o programa Memória Científica, da TV Unicamp, Wilson Cano conta episódios de sua vida profissional acadêmica, destacando a importância da Cepal (Comissão Econômica para a América Latina e o Caribe) e de Celso Furtado na sua formação e na sua atuação como economista, preocupado em entender as raízes do subdesenvolvimento e da desigualdade brasileiras. "Economia é a minha vocação", afirmou. "Sou um economista que respeita muito a história, e sempre que estou raciocinando para um problema presente, ou pensando no futuro, eu olho o passado". Confira o programa na íntegra abaixo.

 

Seus livros, artigos e aulas estão disponíveis no site https://www.wilsoncano.com.br, criado pelo professor para iluminar o debate econômico sobre os problemas nacionais. Segundo a descrição do professor Cano o site é uma forma de "modestamente, contribuir com maior acesso ao conhecimento de nossa economia nacional, de seu subdesenvolvimento, da explosiva e má formação de suas economias urbana e regional e dos crassos erros cometidos em suas políticas púbicas, fatos que hoje têm sido pouco e mal debatidos no país, notadamente na universidade, no sindicato e na mídia."

 

O professor também contribuiu para o livro Celso Furtado e o Brasil, editado pela Fundação Perseu Abramo, disponível em pdf  e para a revista Teoria e Debate com a resenha "Globalização e neoliberalismo" (edição 53) e o artigo "Notas para um projeto nacional de desenvolvimento" (edição 45).

 

Fundação Perseu Abramo

Link: https://fpabramo.org.br/2020/04/06/wilson-cano-economista-por-vocacao/​

Morre Wilson Cano, um dos criadores do Instituto de Economia da Unicamp

Professor foi chefe do departamento de Economia do Instituto de Filosofia e Ciências Humanas da Universidade Estadual de Campinas. Ele tinha 83 anos.

Wilson Cano, um dos criadores do Instituto de Economia da Unicamp, em foto de 2014; pesquisador morreu nesta sexta (3), aos 83 anos

Morreu nesta sexta-feira (3), em Campinas (SP), o professor e pesquisador Wilson Cano, um dos criadores do Instituto de Economia (IE) da Unicamp. Aos 83 anos, ele lutava contra um câncer. O horário e o local do sepultamento não foram informados.

 

Nascido em São Paulo, em dezembro de 1937, formou-se em economia na PUC em 1962. Chegou à Unicamp em 1968, convidado pelo reitor Zeferino Vaz, e ajudou na formação do IE. Foi chefe do departamento de Economia do Instituto de Filosofia e Ciências Humanas entre 1975-1976.

 

Mesmo aposentado, permanecia dando aulas, fazendo pesquisas e produzindo artigos. Em uma entrevista concedida à Unicamp, em 2016, disse que não sabia fazer outra coisa da vida, e aceitou o convite para seguir na universidade como professor colaborador.

 

"Não aprendi a pescar na minha vida, eu não sei fazer outra coisa a não ser um pesquisador e um professor", disse.

 

Cano publicou uma série de livros sobre economia, com destaque para análises da industrialização brasileira. Também acumulou prêmios e títulos, entre eles o de pesquisador emérito do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq). Recentemente, lançou um site pessoal com seu acervo.

 

Em nota, a direção do Instituto de Economia da Unicamp lamenta a morte do professor.

 

"É impossível exagerar a sua importância na criação e consolidação do nosso Instituto, além de seu papel fundamental na história da Unicamp. Formador de várias gerações de pesquisadores e professores Brasil afora, o prof. Wilson é figura maior na trajetória da qual somos todos herdeiros. Combatente das melhores causas até o fim da vida, fica para todos nós seu exemplo de dedicação ao Brasil e à Universidade, sua trajetória ímpar de intelectual e homem público, e os ensinamentos de sua vasta obra e incontáveis aulas ministradas.

 

À família e amigos, o IE manifesta os mais profundos sentimentos neste momento difícil. Recebam nosso abraço fraterno e toda nossa solidariedade", diz o texto.

 

Portal G1

Link: https://g1.globo.com/sp/campinas-regiao/noticia/2020/04/03/morre-wilson-cano-um-dos-criadores-do-instituto-de-economia-da-unicamp.ghtml​

Wilson Cano: uma vida dedicada à pesquisa, à docência e à universidade

O professor Dr. Wilson Cano graduou-se em economia pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP), em 1962.  Doutorou-se pela Universidade de Campinas (Unicamp), em 1975, com a tese “Raízes da Concentração Industrial em São Paulo” (Baixe) e obteve a Livre-Docência pela Unicamp em 1981, com a tese “Desequilíbrios regionais e concentração industrial no Brasil” (Baixe).

Em 1986, sagrou-se professor da Universidade de Campinas, vindo a se aposentar em 2011. Desde então, continuou a manter relevante participação como professor colaborador no Instituto de Economia (IE), onde desempenhou papel central na fundação e consolidação dessa escola como referência nacional e internacional no ensino de economia.

O professor Cano organizou e publicou 20 livros; é autor de quase quarenta artigos em periódicos; e 37 capítulos de livros.  Como pesquisador, exemplificou o caráter imperioso da opinião fundada e do trabalho meticuloso com a informação. Em projetos de pesquisa de maior extensão, sempre agregou equipes interdisciplinares, compostas por economistas, arquitetos, urbanistas e geógrafos.

No exercício da docência de graduação, sempre manifestou preferência pela disciplina de “Introdução à Economia”, que considerava não ser tarefa para professores novatos. Isto porque não se trata apenas de discorrer sobre temas ou apresentar conceitos, mas alertar os jovens ingressantes acerca da responsabilidade do economista em países subdesenvolvidos. Marcados por profundas desigualdades econômicas e sociais, esses países oferecem desafios de toda ordem e a necessidade de construção e implementação de políticas públicas que concretizem maior oferecimento de serviços essenciais à população e redução das desigualdades de repartição de renda e da riqueza.

 

Como professor da pós-graduação, nos anos recentes, os estudantes se beneficiaram de seus conhecimentos, de seu entusiasmo, que costumava se traduzir em várias aulas extras, nas disciplinas de “Política Econômica e Desenvolvimento Regional” e “Desenvolvimento Econômico” (assista). As exposições eram detalhadamente preparadas. A intensidade de leitura indicada pelo professor revelava pluralidade teórica, abrangendo os grandes mestres, notadamente Keynes, Kalecki, Schumpeter e Marx. Bem como os grandes autores brasileiros (Celso Furtado, Caio Prado Jr., Florestan Fernandes, Sérgio B. de Holanda e outros) que pensaram o país.

 

Outros resultados de sua docência refletem na orientação de pós-graduandos. Ao todo, foram 31 teses de doutorado e 33 dissertações de mestrado, além de participações em bancas na Unicamp e em outras instituições brasileiras. Do Amazonas ao Rio Grande do Sul, encontram-se alunos seus.Cabe ainda destacar sua atividade acadêmica como docente em cursos nos escritórios da Comissão Econômica para a América Latina (Cepal/Nações Unidas) no Brasil e em países da América Latina, no período 1966-1980.

 

O sonho de uma escola alternativa de formação de economistas

 

A circunstância feliz – em um momento de repressão política – da implantação de uma universidade pública em Campinas, sob o comando do Prof. Zeferino Vaz, permitiu que um curso alternativo de economia se encaixasse no projeto que desenhara o eminente reitor de um Departamento de Planejamento Econômico e Social (Depes). Implantado em 1968, o Depes viria a integrar o Instituto de Filosofia e Ciências Humanas e a formar o Instituto de Economia em 1984. 

 

Os primeiros anos do Depes somou os fundadores vindos da Cepal: Wilson Cano, Ferdinando Figueiredo, Roberto Gamboa; e de São Paulo: Luiz Gonzaga Belluzzo, João Manuel Cardoso de Mello, Carlos Gonçalves, Osmar Marchese e Fausto Castilho. Novas incorporações foram se sucedendo: Éolo Pagnani, Antonio de Castro, Carlos Lessa, Maria da Conceição Tavares e Jorge Miglioli. Mais à frente, vieram Luciano Coutinho, Paulo Baltar, José Carlos Braga, Frederico Mazzuchelli, Carlos Alonso Barbosa Oliveira, Carlos Kurkinewa, Liana Aureliano e Sérgio Silva.

 

Em “anos de chumbo”, o economista crítico não poderia se constranger à docência e à pesquisa. Avultava, então, o homem público Wilson Cano, assessorando a frente política de oposição; produzindo textos partidários; participando da campanha pelas Eleições Diretas; encabeçando o Movimento de Renovação dos Economistas e apoiando o Fórum Empresarial Gazeta Mercantil.

A economia brasileira e os desequilíbrios regionais do país

 

Tanto pelos cursos de Economia Brasileira a seu cuidado, quanto pela discussão com os colegas de trabalho, certificava-se que a investigação da “questão regional” era de suma importância. Entregou-se ao estudo aprofundado das raízes fundamentais do processo de concentração industrial em São Paulo e seu papel na dinâmica inter-regional do país. Os resultados dessa investigação de doutorado formaram o livro “Raízes da concentração industrial em São Paulo” (Baixe).

 

Prosseguindo seu projeto maior, o Prof. Cano passou a estudar a questão regional brasileira, através do exame do processo de integração do mercado nacional, nele destacando-se a análise do setor industrial. Subdividiu o período 1930-1970 em dois subperíodos: 1930-1955, quando se altera o padrão de acumulação de capital e o país ingressa no processo de industrialização “restringida”, e no de 1956-1970, quando o padrão se altera pela implantação dos setores industriais produtores de bens de produção e de consumo durável, a chamada industrialização “pesada”.  

 

Nos anos pós-1930, a integração do mercado nacional se intensificou, de sorte que os diferentes espaços regionais passaram a sofrer a ação de dois movimentos: “o antigo, decorrente da manutenção de uma estrutura primário-exportadora; o novo, decorrente da ação comandada pelo centro dominante nacional, via dominação dos mercados e do processo de acumulação de capital”. Concluía então que, nesta economia agora nacional, não era adequado pensar as economias regionais, enquanto espaços regionalizados, dada a superposição daqueles dois movimentos. Os resultados foram materializados em sua tese de livre-docência e publicada no livro “Desequilíbrios Regionais e Concentração Industrial no Brasil 1930-1970” (Baixe).

 

Sempre atento à sua área de pesquisa, o professor Cano completou sua trilogia em 2009, publicando “Desconcentração produtiva regional do Brasil 1970-2005” (Baixe).

 

Nessa obra ele apresentou como a desconcentração produtiva espacial se manifesta no país, de forma positiva, entre 1970 e 1980, e de forma espúria, a partir dessa data. A obra recebeu o prêmio “Brasil de Economia”, do Conselho Federal de Economia (Cofecon), em 2009.  

 

Seus últimos escritos trataram de temáticas que sintetizam toda a sua carreira intelectual. Desde a coletânea “Ensaios sobre a crise urbana do Brasil”, de 2011, publicado pela Editora da Unicamp; passando pelo balanço crítico da economia brasileira no artigo “Brasil – construção e desconstrução do desenvolvimento” (Baixe), publicado em agosto de 2017 na Revista “Economia e Sociedade”, do IE; e sua última reflexão de fôlego, o artigo “(Des)Industrialização e (Sub)Desenvolvimento” (Baixe), publicado em 2018, nos Cadernos do Desenvolvimento, revista do Centro Internacional Celso Furtado de Políticas para o Desenvolvimento.

 

América Latina, Brasil e a nova ordem internacional

 

Escreveu Wilson Cano em 1992: “Minhas preocupações com o desenvolvimento econômico brasileiro já estavam presentes durante os anos do ‘Milagre Brasileiro’ (1967-1974) e da tentativa do II PND, pois as excepcionais taxas de crescimento da renda não escondiam, para nós, suas inevitáveis sequelas que a inflação, o desequilíbrio cambial, o endividamento externo e a política salarial causariam à macroeconomia brasileira e à regressiva distribuição da renda do país. A ‘crise da dívida’, a partir de 1979-1983, encarregar-se-ia de explicitar essas sequelas”. 

 

Com a imposição crescente das políticas neoliberais ao país, do governo Collor ao governo de Fernando Henrique Cardoso, o Prof. Cano passou a defender a produção de um consenso político nacional que permitisse a formulação de uma estratégia alternativa para o país. Dizia que era necessária a imediata e simultânea remoção de uma série de constrangimentos internos e externos que impediriam, e impedem, a retomada do crescimento brasileiro com justiça social. Produziu então o longo ensaio “Reflexões para uma política de resgate do atraso social e produtivo do Brasil na década de 1990” (Baixe), de larga repercussão. 

 

Com os acontecimentos políticos europeus entre 1989 e 1991, o Prof. Cano partiu para os Estados Unidos e para a Europa Ocidental, de sorte a estudar, em princípio, as possibilidades da retomada do investimento direto estrangeiro e a expansão das exportações brasileiras. Realizadas meia centena de entrevistas e colhido grande volume de documentos, outros assuntos foram se adicionando como o desemprego elevado, o tratamento da questão regional, o papel das pequenas e médias empresas. Os ensaios decorrentes dessa estadia foram agregados em “Reflexões sobre o Brasil e a nova (desordem) internacional”  (Baixe), de 1993.

 

Em 1997/98, o Prof. Cano coordenou um amplo projeto de estudo sobre o impacto das políticas neoliberais na América Latina. Resultou o alentado volume “Soberania e política econômica na América Latina” (Baixe), onde se encontram informação retrospectiva desde 1930 (até antes) e análise aguda dos anos noventa no Brasil, Argentina, Chile, Colômbia, México, Peru, Venezuela e Cuba.

 

A crise brasileira é estrutural

 

O Prof. Wilson Cano sempre insistiu que a crise brasileira é estrutural, por isso, não pode ser explicada apenas por indicadores abrangentes de alguns poucos anos atrás, mas sim, por processos cruciais que se acumularam desde os anos oitenta do século passado. 

 

Havendo apontado questões graves e restrições fortíssimas ao desenvolvimento nacional, Wilson Cano não deixou de acreditar em soluções para o Brasil, mas sem apelo a políticas que acobertam arraigados interesses patrimonialistas-rentistas.  Tendo em vista as circunstâncias internacionais, Wilson Cano só conseguia vislumbrar saídas de médio e longo prazos, feitas com competência técnica, mas sobretudo, muita articulação política. Ele nunca descartou o desafio que se mostrará imperioso no futuro de rompimento do País com várias das amarras impostas pelo regramento internacional.  

 

Nos últimos anos, junto aos colegas do Centro de Estudos de Desenvolvimento Econômico (CEDE), vinha mantendo frequente colaboração, participando dos seminários da área de Desenvolvimento Regional e Urbano e ministrando suas aulas de Desenvolvimento Econômico no Programa que leva o mesmo nome desta disciplina na Pós-graduação do IE, além de organizar seu acervo pessoal e intelectual.

 

Do alto de seus mais de oitenta anos, travando uma luta incessante pela vida, o guerreiro não se abateu. Ofereceu à comunidade acadêmica nacional não só o acesso digitalizado ao acervo de seus livros, artigos, palestras – www.wilsoncano.com.br, como também a possibilidade de interagir com seus leitores. Até seu último dia, manteve-se como um ativo pensador e crítico da realidade econômica brasileira e internacional.

 

Certamente, ter a oportunidade de conviver com o professor Wilson Cano foi uma imensa honra para gerações de professores, estudantes e funcionários em cinco décadas do Instituto de Economia da Unicamp.

 

Conteúdo adaptado de texto do professor Claudio Maciel (IE-Unicamp), com apoio de Humberto Miranda (Cede-IE-Unicamp).

 

 

Instituto de Economia da UNICAMP

Link: http://www.eco.unicamp.br/noticias/memoria-wilson-cano

Unicamp perde o professor Wilson Cano

O economista Wilson Cano, professor do Instituto de Economia da Unicamp, faleceu nesta sexta-feira (03/04) aos 83 anos.

 

Nascido em São Paulo em 1937, Wilson Cano se formou em economia na Pontifícia Universidade Católica de São Paulo em 1962. Veio trabalhar na Unicamp em 1968, no antigo Departamento de Economia e Planejamento Econômico do Instituto de Filosofia e Ciências Humanas (IFCH).

 

Também no instituto iniciou seu doutorado em 1972 defendendo a tese Raízes da Concentração Industrial em São Paulo em 1975, sob orientação de João Paulo de Almeida Magalhães.

Foi chefe do antigo Departamento de Economia e Planejamento Econômico do IFCH entre 1975-1976. No mesmo ano foi eleito diretor do instituto, cargo que ocupou até 1980. Se tornou professor livre-docente em 1981, e professor-adjunto em 1984.

 

Wilson Cano participa do processo de desmembramento do Departamento de Economia e Planejamento Econômico do restante do IFCH, dando origem em 1984 ao Instituto de Economia (IE) da Unicamp. Em 1986 Wilson Cano é aprovado no concurso para professor titular, e em 1990 participa da fundação do Centro de Estudos de Desenvolvimento Econômico (Cede), que acabou dirigindo entre 1991-1994 e 2001-2005.

 

Aposentado em 2008, Wilson Cano continuou atuando como professor-colaborador da universidade. Sua obra inclui artigos e livros sobre industrialização e subdesenvolvimento econômico brasileiro e latinoamericano.

 

Em 2006 foi um dos colaboradores de Latinoamericana: enciclopédia contemporânea da América Latina e do Caribe (Boitempo), obra vencedora do Prêmio Jabuti nas categorias Melhor Livro do Ano de Não Ficção e Melhor Livro do Ano de Ciências Humanas em 2007. Já em 2008 recebeu o prêmio de Pesquisador Emérito 2008 do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq).

Instituto de Filosofia e Ciências Humanas (IFCH) - UNICAMP

Link: https://www.ifch.unicamp.br/ifch/noticias-eventos/instituto/unicamp-perde-professor-wilson-cano

Nota de falecimento - Professor Wilson Cano

O Instituto de Pesquisa e Planejamento Urbano e Regional (IPPUR) comunica, com pesar, o falecimento do professor Wilson Cano (1937-2020), na tarde de 03 de abril de 2020. Um dos fundadores do Instituto de Economia da Universidade Estadual de Campinas (UNICAMP), Wilson Cano foi responsável por formar gerações de professores e pesquisadores na área do Desenvolvimento Econômico, notadamente em estudos regionais e urbanos. A vasta e original obra por ele produzida, assentada em uma perspectiva crítica e heterodoxa, expressa a urgência de viabilizar a superação do subdesenvolvimento e o compromisso republicano com um projeto democrático de Nação para o Brasil. Foi, por isso, motivo de inspiração e referência teórica e política em toda a América Latina. O IPPUR, neste momento de dor e tristeza, transmite condolências aos familiares, amigos e colegas do Professor Cano. 

Instituto de Pesquisa e Planejamento Urbano e Regional (IPPUR)

Link: http://www.ippur.ufrj.br/index.php/pt-br/82-destaques-unicos/674-nota-de-falecimento-professor-wilson-cano

Depoimento sobre o professor e economista falecido em 03 de abril de 2020.

Por Joelson Gonçalves de Carvalho

Espero que muito se fale e se escreva sobre o professor Wilson Cano, um dos intelectuais fundadores do que hoje se chama Instituto de Economia da Universidade Estadual de Campinas (IE/Unicamp), que nos deixou na tarde do dia 03 de abril. Alguns depoimentos e relatos já circulam nas redes sociais. Muitos trazem a autoridade da amizade de longa data, outros a legitimidade da proximidade nos últimos tempos. Todas as homenagens são e serão muito bem-vindas, pois é inquestionável a importância deste intelectual na gênese e consolidação de um pensamento crítico e autônomo sobre a economia latino-americana e brasileira em termos gerais e para a dinâmica da economia regional e urbana no Brasil mais especificamente.

 

Minha última conversa com Wilson Cano foi em setembro de 2015. Não contei com nenhum status especial de proximidade: fui mais um dos seus muitos alunos e um de seus orientandos. É nesta condição que gostaria de acrescentar essas linhas às muitas homenagens já escritas sobre Wilson Cano.

 

Conheci o professor Cano primeiro pelos seus textos. Seu livro clássico, Raízes da concentração industrial em São Paulo (Difel, 1977), era leitura obrigatória na graduação em Ciências Econômicas da Universidade Federal de Uberlândia (UFU). Naqueles tempos, a UFU contava com muitos professores que tinham passado pelo Instituto de Economia da Unicamp e, sob essa influência, dirigiam seus cursos e inspiravam seus alunos. Eu inspirado, quis conhecer a fonte: fui fazer mestrado e doutorado em Desenvolvimento Econômico no IE da Unicamp. Ali tive aulas com Wilson Cano nestes dois momentos, que se estenderam de 2001 a 2011. Para minha satisfação, ele aceitou me orientar em meu doutoramento.

 

Intelectualmente, seria impensável tentar fazer um resumo de suas contribuições aqui. Cabe apenas dizer que sua explicação para as disparidades regionais, mais visíveis no período pós-1930, mesmo convincente não agradou a todos. Seu argumento central, em certa medida, inocentava o Estado de São Paulo por sua concentração de atividades econômicas, notadamente das industriais. Não raro, ouvi colegas com outras referências e influências acadêmicas e intelectuais, acusarem-no de “sãopaulocentrista”.

 

Os críticos, no afã da manifestação da discordância, perderam a oportunidade de ter uma compreensão mais profunda e imbricada. Se esse ente chamado “São Paulo” não era o culpado, quem era? Na resposta, Wilson Cano mostrou toda sua erudição, não se ensimesmando no economicismo: segundo ele, entre outros fatores, precisávamos entender o conservadorismo das elites nacionais no bloqueio à reforma agrária.

 

Minha experiência ao lado de Wilson Cano me faz querer destacar algumas lembranças que o mostram como o homem generoso e incansável que é (no presente). A generosidade de Wilson Cano talvez não tenha sido sua característica mais reconhecida, mas sem dúvidas, foi a que mais me marcou pessoalmente, mesmo a despeito de um dos muitos diálogos que tivemos como esse que reproduzo, quando estava em fase de escrita de minha tese de doutorado: – Professor, te envio essa primeira versão do meu capítulo, não está muito boa, mas segue para sua apreciação.– Se o senhor mesmo acha que não está boa, porque acha que eu tenho que perder o meu tempo lendo?

 

Quando nós, seus orientandos de mestrado e doutorado daqueles primeiros anos da década de 2000, conversávamos sobre situações como essa, víamos que todos tínhamos algo assim (ou mais constrangedor) para contar. Mas a sisudez nem de longe foi a memória que ficou, pelo menos não para mim. Não sei se por dó ou por espanto, quando soube que eu era filho de uma boia-fria e um padeiro e que, para piorar tudo, estava sem bolsa de mestrado, não sei de onde, me arrumou um trabalho: ajudá-lo em uma pesquisa qualquer. Me dava tarefas compatíveis com meus estudos e me pagava o valor compatível com uma bolsa. Por suposto, isso foi fundamental para que eu conseguisse terminar o mestrado e seguir em frente.

 

Cano gostava de estar com colegas e alunos no bar. Quando estive por Campinas, o bar obrigatório para depois das aulas era o Bar da Coxinha, em Barão Geraldo. Ali ele deixava de lado a sisudez corriqueira e se abria em sorrisos, entre chacotas e zombarias que ele gostava de fazer com quem dividia a mesa. Em algum momento que não sei precisar, mas que sei que foi no bar, saiu uma piada direcionada a mim, por ser eu o único mineiro na mesa.

 

Disse alguém: – “Joelson, você sabe que Minas Gerais têm três problemas. Telemar, Itamar e não ter mar”. O chiste, bradado com forte entonação do erre retroflexo, poderia ter ficado só numa grande gargalhada dele, mas eu emendei com uma verdade constrangedora aos colegas da mesa: “nem me diga, eu só fui uma vez na praia”. Não muito tempo depois, Wilson Cano me chamou em sua sala para me emprestar a chave de sua casa em Ubatuba, me dando indicações do melhor trajeto, em tempos que o waze não existia.

 

Cano continuou a trabalhar até seus últimos dias, mesmo tendo se aposentado em janeiro de 2008 – aposentadoria essa que só veio compulsoriamente, quando de seus 70 anos. Mesmo aposentado, Wilson Cano dava aulas, orientava, pesquisava, escrevia, dava palestras. Como ele mesmo disse certa vez em uma entrevista à TV Unicamp [1]: “Eu continuei aqui na casa. Como eu não aprendi a pescar na minha vida, não sei fazer outra coisa, a não ser um pesquisador e um professor, então eu aceitei de bom grado o convite que me fizeram para que passasse então para professor colaborador”.

 

Sua generosidade – e também seu espírito incansável – se mostram em uma de suas últimas iniciativas: a criação de um site pessoal, em julho de 2019, com todos os seus livros, artigos, notas de aula, programas de disciplinas e outros escritos de acesso livre e fácil. Ali, logo na apresentação o leitor se depara com a seguinte informação [2]: “Poderia parecer estranho que, doze anos após me aposentar, e mais recentemente, depois de ter passado por “pesada” cirurgia no pâncreas e por um enfarte, tenha decidido fazer um site pessoal”.

 

Sim, mesmo depois de tudo isso, Wilson Cano estava ativo e trabalhando, mas não, mestre Cano, não parece estranho. Como você mesmo ressaltou, disponibilizar toda sua obra irá estimular e auxiliar jovens pesquisadores Brasil afora e, assim, você continua incansável e generoso. E não há morte que possa por fim a isso.

 

Wilson Cano, presente!

 

Joelson Gonçalves de Carvalho

Link: https://aterraeredonda.com.br/wilson-cano

 

 

Tributo ao professor Wilson Cano

Wilson Cano (1937-2020).

 

Por Maria do Livramento Clementino

Coordenadora do Observatório das Metrópoles Núcleo Natal

Professora do Departamento de Políticas Públicas (UFRN)

 

Conta-se aqui no Nordeste que um dia, Dom Elder Câmara, Arcebispo de Olinda e Recife, deveria homenagear um grande amigo. Ele se perguntava: o que dizer para dizer tudo? E dirigindo-se a seu amigo, ele simplesmente disse: amigo, você sabe! Hoje, tenho vontade de fazer do mesmo jeito e dizer simplesmente: Wilson, você sempre soube!

 

Na década de 1980 eu iniciava em Campinas (SP) uma experiência de formação intelectual e profissional. Chegava na UNICAMP para iniciar minha pós-graduação na Sociologia Rural. Fui acolhida, no IFCH (Instituto de Filosofia e Ciências Humanas), pela professora Nazaré Wanderley. Levava na bagagem, minha família, meus filhos ainda pequenos e a proposta de estudar o Nordeste, a modernização da economia nordestina e a propalada “vocação têxtil” do Rio Grande do Norte.

 

Ainda no mestrado, ao me deparar com as questões teóricas da intermediação comercial e financeira da agroexportação do algodão do final do século XIX até os anos 70 do século XX, cheguei ao Departamento de Planejamento Econômico (DEPE) e ao professor Wilson Cano, então Coordenador do Programa de Pós-Graduação em Economia. Fui atendida na minha solicitação de cursar as concorridas disciplinas de Economia Política e Economia Brasileira, sendo esta última ministrada por Cano.

 

Fui para Campinas estudar e estudei com afinco. Um dia, o professor abriu a porta da sala lá no “barracão” e me entregou o trabalho corrigido dizendo: “seu trabalho merece ser publicado”. Ao ler suas observações, estava lá escrito: “leu tudo, entendeu tudo e, bem”. Vindo de Wilson Cano, sempre direto, reto e justo, esta observação fez aumentar a minha responsabilidade como sua posterior aluna de doutorado, que concluí em dezembro de 1990, sob sua orientação.

 

Devo dizer que, desse encontro, nasceu uma relação profissional e de amizade que nutrimos até este crucial momento de sua morte. Minha trajetória acadêmica foi profundamente marcada por esse brilhante intelectual, grande brasileiro, que continuará conosco através de sua obra. Tinha a estatura de Celso Furtado, Caio Prado, Francisco de Oliveira, Paul Singer, Darcy Ribeiro e outros da mesma geração preocupados com um projeto de Nação, para o Brasil. Seu artigo “Brasil: construção e desconstrução do desenvolvimento”, de 2017, encontra-se como último registro nos “Textos para Discussão” das publicações do IE/UNICAMP e em seu próprio blog. Nele, você encontra trabalhos de uma vasta produção entre: (i) artigos completos publicados em periódicos, (ii) livro publicados e organizados ou edições (iii) textos em jornais e revistas, (iv) trabalhos completos publicados em anais de congresso, (v) apresentação de trabalhos e (vi) outros tipos de produção bibliográfica. Enfim, um legado àqueles que pensam o futuro do Brasil criticamente.

 

E o que dizer da influência da obra de Wilson Cano, de seu legado, para gerações de pesquisadores e professores universitários brasileiros? Diria que é fundamental à explicação da história econômica brasileira, notadamente, no século XX, pois, de modo crítico, dá conta de analisar a passagem de uma realidade econômica marcada por complexos regionais para outra, de uma economia industrial nacionalmente integrada. Não é, evidentemente, o caso de tentar aqui a apresentação mais ampla de sua obra, ou até mesmo resgatar as linhas mestras de seu pensamento. Seria por demais longo e exigiria uma capacidade de síntese que receio não conseguir, neste momento, demonstrar. Mas gostaria de fazer breves considerações que julgo da maior importância para a questão regional brasileira. Em particular, a gênese das desigualdades regionais e os processos que estão por trás de economia tão desigual e heterogênea.

 

O professor Cano fez isso com maestria e de forma profunda, sequenciada, em seus dois trabalhos basilares: Raízes da Concentração Industrial em São Paulo (1981) e Desequilíbrios Regionais e Concentração Industrial no Brasil (1985). Constituem, em suas variadas versões, publicações e atualizações “um dos mais completos painéis sobre a gênese das desigualdades regionais, sobre a formação do mercado interno brasileiro, e sobre a evolução e estrutura regional da indústria”. Assim se expressou Leonardo Guimarães, por ocasião do seminário “Desenvolvimento e Questão Regional e Urbana no Brasil”, organizado pelo IE/Unicamp, e que participamos por ocasião de sua aposentadoria compulsória, em 2008, quando se reuniram muitos de seus ex-orientandos.

 

No primeiro livro (está na 5ª edição), constrói o fundamento de seu pensamento: a importância e o papel de São Paulo na dinâmica inter-regional do país. Para ele, não se trata de analisar apenas a economia cafeeira em São Paulo antes de 1930, mas de verificar o desenvolvimento de relações capitalistas de produção aí vigentes e a formação de um complexo econômico: o complexo cafeeiro de São Paulo. Ou seja, as “Raízes” remontam ao início do século XX e não, “como pensavam alguns”, ao pós-Crise de 1929.

 

O segundo livro, Desequilíbrios Regionais e Concentração Industrial no Brasil (especialmente, o Capítulo V – Integração do Mercado e Constituição da Periferia Nacional), foi fundamental para marcar nossos estudos sobre o Nordeste brasileiro. Ao examinar o processo de integração do mercado nacional, comprovando a inexistência de estagnação regional na economia brasileira no pós-30, abre um profícuo debate sobre o Nordeste com outras vertentes do pensamento social brasileiro acerca dos impactos da Integração Produtiva na periferia, liderando estudos de significativo desdobramento.

 

A partir de seus ensinamentos, entendemos como o Nordeste conseguiu adaptar-se a modernização provocada pela “industrialização restringida”. Quais as novas necessidades colocadas para o Nordeste pela integração do mercado nacional de mercadorias, e depois, do mercado nacional de capital? A partir da leitura dos textos de Wilson Cano e de forma muito breve, diria que um primeiro problema na interpretação do Nordeste no período da “industrialização restringida” dizia respeito às conexões que se estabeleceram na formulação da periodização, entre as fases de desenvolvimento do capitalismo no Brasil e aquelas relativas a uma participação mais favorável do Nordeste no processo de industrialização da economia brasileira iniciado nos anos 1930. Pois, na construção do período anterior (1886/1933), a literatura nos ajuda a interpretar a região sem maiores problemas, como nos ensina o próprio Cano “salvo as pequenas linhas de integração preexistentes entre algumas regiões do país, este, na verdade, era muito mais uma soma de regiões econômicas distintas” (Desequilíbrios…, p. 229).

 

Para os que estudam o Nordeste, é a partir de 1930 é que começam as dificuldades de interpretação da realidade regional à luz do processo de desenvolvimento do capitalismo no Brasil. Tratando-se do Nordeste, se mantém a estrutura da economia exportadora e o domínio do capital mercantil É reconhecido Cano e por vários outros autores que no Nordeste e em outras partes da periferia nacional a estrutura da economia exportadora reagiu ao que Celso Furtado chamou de “deslocamento do centro dinâmico da economia”, no sentido de preservar a reprodução de sua base material – a grande propriedade fundiária. Essa reação às transformações requeridas pelo processo de desenvolvimento capitalista abriu espaço pra que o capital mercantil continuasse a comandar a maior fração do processo de acumulação na região, perdendo muito pouco terreno para o capital industrial, mesmo adiante, quando havia se completado o processo de constituição das bases produtivas de desenvolvimento do capitalismo no Brasil.

 

Como historicamente no Brasil a articulação entre a agricultura e a indústria foi feita pelo capital comercial para a maioria dos produtos agrícolas, Cano nos ensinou que “o domínio do capital mercantil manteve-se sobre a agricultura nacional capturando-lhe grande parte do excedente; no financiamento, comercialização e distribuição de produtos tradicionais, tanto os destinados ao mercado interno quanto os destinados às importações” (Desequilíbrios…, p. 229). No Nordeste as exportações para o exterior “continuaram por muito tempo a ser o elemento dinâmico dessas economias. Elas somente passariam a segundo plano a partir do momento em que fossem superadas pelas exportações para o mercado interno, o que viria a ocorrer a partir de meados da década de 1950” (Desequilíbrios…, p. 225).

 

Aqui cabe uma observação sobre aspecto que considero da maior relevância. O trabalho de Wilson Cano se diferencia de um grande número de estudos pelo fato de não se limitar ao exame das diferenças de ritmo da economia, que caracterizavam o comportamento dos espaços regionais. Segundo Leonardo Guimarães “o que ele busca é identificar as razões que estão por trás dessa diferencial na industrialização e, uma vez iniciado tal processo, relações econômicas se estabeleceram entre as economias regionais”. Isto faz a diferença. Este é o passo seguro e definidor da caminhada que Cano irá fazer no desenvolvimento futuro do seu trabalho para compreender a questão regional brasileira. A ênfase no papel dominante do capital mercantil em algumas regiões, no atraso ao processo de diversificação produtiva, é parte constitutiva de sua empreitada no aprofundamento na histórica econômica regional.

 

Já no que se refere à desconcentração industrial, que tem início nos anos 1970, foi caracterizada por Wilson Cano através de dois movimentos. Um que vai de 1970 a 1985, por ele denominado de “auge da desconcentração industrial regional”, no qual São Paulo sofre perdas significativas na sua participação industrial; e outro que alcança os anos de 1985 a 1995, para o qual o autor usa a expressão de “inflexão do processo de desconcentração industrial”. Posteriormente, aprofundou essas questões no livro “Desconcentração regional produtiva no Brasil: 1970-2005” (2008). Nessa obra, Wilson Cano atualiza sua análise do processo de desequilíbrios regionais até 2005, com destaque para a fase de abertura da economia nacional e da implantação das políticas econômicas neoliberais até a metade da primeira década do século XXI.

 

O trabalho de Wilson Cano teve desdobramentos em várias direções. Foi inspirada nos seus ensinamentos que comecei a refletir sobre a relação entre agricultura e urbanização na história econômica e urbana do Nordeste, seguindo o caminho metodológico que ele mesmo indicou. Num artigo publicado na Revista Reforma Agrária (“Agricultura e Urbanização”, Campinas, ABRA, abril-julho de 1986), em plena Nova República e Plano Cruzado, ele ressaltou que a reflexão socioeconômica sobre os problemas da agricultura e sobre a urbanização deveria ser realizada de forma integrada, e propõe que as preocupações acadêmicas se voltem para uma reflexão que tente a entender o fenômeno urbano não apenas como fruto de sua própria evolução, mas como resultante, também, do processo de desenvolvimento rural. Numa crítica à visão “intramuros”, estudou a dinâmica da urbanização utilizando um espectro mais detalhado de relações de interdependência setorial com os vários compartimentos sociais e econômicos do urbano e do rural. Dentro da economia urbana, deu ênfase às múltiplas relações entre os setores industriais e os serviços, lançando luz à própria dinâmica dos componentes do atual setor de serviços. Ainda, adentrando no estudo da urbanização brasileira, não poderia fugir das indagações sobre ações e omissões do Estado no planejamento urbano, no uso do solo e de suas políticas sociais, bem como dos agentes na órbita privada – o capital mercantil e o capital imobiliário construtor. Embora vários desses estudos sejam dos anos 1980 e 1990, só em 2011 reuniu-os no livro “Ensaios Sobre a Crise Urbana do Brasil”.

 

Ainda analisando o papel de Wilson Cano na produção sobre o desenvolvimento, acredito que não se pode deixar de destacar sua participação em três outros conjuntos de estudos sobre o Brasil e suas regiões: sobre as experiências internacionais de desenvolvimento regional, com destaque para o livro “Reflexões sobre o Brasil e a (Des)Ordem Internacional” (1993) fruto de seu pós-doutoramento na Europa em 1992;  sua concepção de planos regionais e locais e para a avaliação crítica sobre o localismo, colocadas, por exemplo, no prefácio do livro de Carlos Brandão, “Território & Desenvolvimento”; e ainda, sobre economia urbana no enfrentamento de algumas questões metodológicas que, em sua maior parte, restringiam a análise da economia urbana e que podem ser encontradas no artigo “Setor Terciário no Brasil: algumas reflexões sobre o período 1970-1989”, escrito em parceria com Ulysses Semeghini, em 1991, para o IV Encontro Nacional da ANPUR.

 

Importante, por fim, registrar que nunca abandonou os estudos relativos à economia de São Paulo, entre eles: “Economia Paulista – Dinâmica Socioeconômica entre 1980 e 2005”, cuja organização é compartilhada com Carlos Brandão, Cláudio Maciel e Fernando Macedo. Além disso, ainda centrado na temática da economia de São Paulo, vale destacar “A Interiorização do Desenvolvimento Econômico do Estado de São Paulo” e “São Paulo no Limiar do Século XXI”. Ou seja, foi realizando pesquisas, escrevendo livros ou artigos, debatendo na academia e fora dela, discutindo políticas e planos, orientando teses e dissertações que o professor Wilson Cano viveu. Gostava do que fazia e dizia que “não tendo aprendido a pescar, gostava de ser professor”. Deixa-nos uma contribuição marcante no conhecimento das desigualdades regionais, da heterogeneidade, dos processos que ocorreram ou estão ocorrendo na articulação entre as economias regionais, dos caminhos e descaminhos dos vários governos na abordagem da questão regional brasileira, e no reconhecimento de que existem no país potencialidades econômicas, políticas e sociais para transformar o Brasil em uma nação justa e solidária, apesar das elites que há décadas dirigem o país.

 

Sua viagem para outro plano dessa constelação, que é o universo infinito, deixa gerações órfãs. Lamentavelmente, as nossas referências acadêmicas estão nos dizendo adeus. Partiu um grande brasileiro, perdemos o convívio do diálogo intelectual e a generosidade de sua amizade; mas fica indestrutível o legado e a produção que farão sempre parte do nosso arsenal e memória. À Selma e aos “meninos” nosso imenso pesar. Descanse em paz, meu amigo.

 

 

Observatório das Metrópoles Núcleo Natal - Maria do Livramento Clementino

Link: https://www.observatoriodasmetropoles.net.br/tributo-ao-professor-wilson-cano/

Wilson Cano, um corinthiano

Por Pedro Paulo Zahluth Bastos

 

Muito se escreveu sobre Wilson Cano desde sexta. Três dias depois dei-me conta que nenhuma homenagem lembrou que era um corintiano doente desde antes da reforma ortográfica de 1943. O esquecimento também foi meu, quando ajudei a redigir a homenagem da Associação Brasileira de Pesquisadores em História Econômica (ABPHE) realçando, como se deve, sua contribuição mais duradoura ao autoconhecimento do Brasil: os três livros sobre a história e a estrutura das desigualdades regionais do capitalismo brasileiro. Atleticanos, flamenguistas, gremistas e outros torcedores não podem deixar de admitir que não há contribuição comparável, em escopo e estilo de jogo, nesse campo.

 

Sem bairrismo, as homenagens realçam o impacto positivo de seus gols, passes e lançamentos: quem pode negar que Wilson se esforçava como ninguém por seus alunos, orientandos e amigos, como se tivesse a Fiel berrando para lhe fazer suar e vibrando com um passe de calcanhar no Pacaembu? Seus companheiros de jogo eram contagiados, e mesmo os marcados e os marcadores admitem que seu jogo era franco, intenso e fiel como sua torcida.

 

Todos lembram que era um professor exigente na qualidade do retorno discente e no volume de carga de leitura e horas-aula (imaginem se não houvesse outras disciplinas na mesma semana, como alguns de seus colegas lhe lembravam no vestiário…). E ele retribuía sendo talvez o mais dedicado e prestativo dos docentes.

 

Os orientandos falam que ele os tirava da zona de conforto para que descobrissem seu potencial. Eufemismo para dizer que, às vezes, encarnava o Oswaldo Brandão (ou o Tite, para os mais novos) e pagava geral. Sem perder a ternura jamais. E funcionava, os jogadores atendiam ao “professor”, corriam mais depois da bronca e traziam a torcida toda para dentro do campo. Dava certo.

 

Seus colegas lembram seu papel construtor de várias gerações de times. O professor de Análise de Projetos, primeiro, e outras disciplinas em seguida nos cursos da Cepal de 1965 a 1980. Fundador da área de humanidades na Unicamp, isto é, do Departamento de Planejamento Econômico e Social, embrião do Instituto de Filosofia e Ciência Humanas, que dirigiu entre 1976 e 1980. Construtor da Escola de Campinas, e concretamente do Instituto de Economia da Unicamp, onde criou e dirigiu vários centros de pesquisa. Apoiador da constituição do Instituto de Estudos da Linguagem e do Instituto de Geologia. Diretor de várias associações científicas (a ABPHE inclusive). Economista do MDB na luta contra a ditadura.

 

Só esqueceram de falar da Adunicamp, onde animou várias mesas de debate (como nesta contra o Golpe). Quando discordava, era duro, mas respeitoso e profundo, preferindo sempre o argumento substantivo ao grito da torcida. Não que não gostasse das controvérsias quase futebolísticas: no Bar da Coxinha, concordando ou não com o professor Alberto Lobão (IG), ele enumerava “carreiristas”, “de direita”, “neoliberais” e outros times depois do segundo copo. Quase sempre com razão.

 

Tive sorte de vê-lo jogando em várias posições com uma categoria de deixar outro polivalente Wilson (Mano, o jogador) com ciúme. Em 1990, era bibliografia de Formação Econômica do Brasil, clara no estilo, profunda e objetiva no recado. Em 1991, era o pai do Newton e do Marcelo, e bancava generosamente, com a Selma, aqueles churrascos na beira da piscina quintas à noite. Não conheci bem o caçula Eduardo, que nasceu pouco depois do glorioso ano de 1977. Talvez o mais feliz ano da vida de Wilson, o da publicação de seu primeiro livro e principalmente do fim de quase 23 anos de jejum naquele campeonato roubado da Ponte Preta. Quem conhece os filhos sabe da qualidade dos pais.

 

Depois, guia e companheiro de jornada política a partir de 1992, quando o saudoso Marco Aurélio Garcia resolveu formar nos sábados um grupo de economistas jovens do PT apoiado pelo Wilson e pelo Guido. Em 1993, o envolvimento com o PT-Campinas tinha uma meta clara: convencer Toninho a disputar a Prefeitura de Campinas em seminários quintas à noite, criar condições políticas para isso e elaborar um programa de governo se tudo desse certo. Para quem não sabe, a brilhante tese de Antônio da Costa Santos sobre a urbanização de Campinas foi orientada por Wilson.

 

Demorou, mas deu certo na eleição de 2000. Cobrou quando eu ia terminar a tese, que ele acompanhava informalmente junto com o Belluzzo, orientador. Queria que eu deixasse por um tempo a academia para integrar a equipe de assessoria no gabinete do Prefeito. Pediu nomes, mas já conhecia quase todos os membros daquela equipe de alta qualidade (Bráulio, Bura, Glauco, Lício, Tannuri), Claudio Maciel pelo Centro de Desenvolvimento. Dividi a sala com Wilson inclusive no dia seguinte ao assassinato político. Na manhã de 11 de setembro de 2001, o vi procurar o infinito pela janela e dizer “morreu um sonho”.

 

Pouco mais de um ano depois, abandonou o partido quando Pallocci assumiu o comando da economia. Na época alguns diziam que ele não tinha paciência. Difícil dizer isso de quem esperou quase 23 anos em jejum fiel. Ele tinha é faro. E o olhar de quem se acostumou a entender sistemas histórico-estruturais, sua dinâmica e seus limites. Ou será quem alguém ainda defende o Pallocci e suas escolhas?

 

Wilson dizia que ia dar errado bem lá atrás, e continuou dizendo mesmo nos momentos de euforia, embora reconhecesse e louvasse, como seu mestre Celso Furtado, a melhoria de vida dos brasileiros que passaram a acreditar que não morreriam mais de fome, de doença banal ou analfabetos. Certamente torcia para que as esquerdas não precisassem esperar 23 anos para ter nova chance de corrigir os erros, inclusive porque sabia que os erros da direta são muito maiores ou, pior ainda, nem erros são (para eles).

 

Até hoje ensino na graduação o programa introdutório a Desenvolvimento Econômico-Social que ele cortou e refinou, com martelo, em 2011. A bibliografia é quase a mesma, um pouco maior agora porque, na graduação, ele sugeria mais densidade que volume. Flamenguista teimoso, estou me convencendo do acerto do conselho aos poucos. Último novembro, fiquei feliz porque gostou do primeiro capítulo de meu esboço sobre o pensamento da Escola de Campinas, mas chateado porque não conversamos depois sobre isso como combinado. Ficou para depois do carnaval.

 

Infelizmente as circunstâncias exigiram uma despedida restrita aos familiares. Não pudemos fazer a celebração da vida como no adeus ao grande amigo Antônio Carlos Oliveira, sociólogo botafoguense com quem Wilson concordava até no gosto musical. Nosso consolo é que Wilson teve a sorte de uma vida plena. Ontem li que os dançarinos de caixão em Gana são o reflexo espetacular de uma tradição secular de celebração da vida na hora da morte. Se o acaso ocorre quando o sujeito é novo e ainda não realizou seu potencial, não há dança, e os parentes e amigos trajam vermelho e preto (acho que deve ter uma faixa branca para ficar tricolor). Caso contrário, vestem-se alvinegros. Nesse caso, justa coincidência.

 

 

ADUNICAMP - Pedro Paulo Zahluth Bastos

Link: http://adunicamp.org.br/novosite/wilson-cano-um-corinthiano/

Depoimento do professor Renato Danigno (IG-Unicamp) sobre Wilson Cano:

“Latino-americanista de esquerda, desde a participação do Amílcar Herrera no seminário que fizemos em 1977, Wilson Cano gostou da ideia que ali se gestou de trazê-lo para a Unicamp.

 

Para o primeiro projeto do IG, “Modelo de Demanda de Recursos Minerais”, que elaboramos tendo por base o Modelo de Bariloche, convidamos para fazer parte equipe, o Wilson Cano. Da matemática, convidamos o Ubiratan D´Ambrósio e o Mario Martinez, da Sociologia, o André Villalobos, etc.

 

Era uma equipe e tanto que ajudou a legitimar e consolidar o IG.

 

Junto com o Herrera, o Celso Pinto Ferraz - geólogo de esquerda recém chegado do DNPM e que havia se negado a segurar a pasta do Ueki para somar-se ao “corpo docente” do IG, que até então tinha só duas pessoas -, e eu - formado em engenharia metalúrgica e em planejamento socialista, e fascinado por modelagem baseada em matrizes de insumo x produto - ajudávamos a coordenar.

 

Depois de um tempo, o Cano pediu para ser substituído pelo Mario Possas, engenheiro que também gostava daquelas matrizes e que, depois de se interessar por uma das linhas em que trabalhávamos - Economia da Tecnologia - teve uma participação importante na formação de pós-graduação de colegas do DPCT.

 

O Cano indicou também o Tamás, de cuja aproximação conosco no âmbito do projeto resultou sua vinda para o IG onde foi essencial na consolidação do DPCT.

 

Mais tarde, quando foi discutido no Conselho Superior a criação do nosso programa de pós-graduação em política científica e tecnológica, o “pessoal da Economia” argumentou que um programa desta natureza deveria estar lá, e não no IG. A inesperada e extraordinária resposta do Herrera, de que concordava, mas que nós tínhamos tido a iniciativa antes, não teve como ser objetada.

 

Cano sempre foi um leal “bom jogador” e aceitou o touché (para quem não lembra: “expressão usada para admitir que alguém fez um bom argumento contra você em uma discussão”) sem que nossa amizade saísse arranhada.

 

Continuamos nos reunindo no bar do peixe (e no da coxinha, mais tarde) para tomar cerveja e cantar com o Nathermes e o Paulo Renato e suas esposas, o Possas, e outros que não me lembro. Recordo que ele, no atabaque, gostava do modo como eu interpretava o “esse corpo moreno cheiroso e gostoso que você tem…”).

 

Perdemos mais um companheiro, mas seu exemplo faz com que redobremos nossa vontade de lutar pelos nossos ideais.”

Renato Danigno (IG-Unicamp)

 

Um pensador do desenvolvimento

Wilson Cano foi um dos fundadores do Instituto de Economia da Unicamp e estudioso da industrialização brasileira.

Um estudioso da industrializa-ção brasileira e da relação entre desenvolvimento econômico e desequilíbrios regionais e urbanos, o economista paulistano Wilson Cano morreu no dia 3 de abril, aos 82 anos. Ele se recuperava de um câncer no pâncreas e sofreu um enfarte. Pesquisador do Instituto de Economia da Universidade Estadual de Campinas (IE-Unicamp), Cano escreveu 14 livros e participou da formação de várias gerações de estudantes na Unicamp, tendo orientado mais de 60 alunos de mestrado e doutorado. A doença levou-o a fazer uma cirurgia há dois anos, mas ainda assim Cano ministrou até 2019 a disciplina de pós-graduação Desenvolvimento Econômico. Recentemente, lançara um site com sua produção científica.

Caçula de seis filhos de um casal de imigrantes espanhóis, formou-se em economia na Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP). Em 1962, fez um curso de pós-graduação de Planejamento e Desenvolvimento Econômico organizado pela Comissão Econômica para a América Latina (Cepal) em São Paulo, experiência que o colocou em contato com professores tomados como referência em sua formação, como Maria da Conceição Tavares, Carlos Lessa e o chileno Aníbal Pinto Santa Cruz (1913-1996). Logo se integrou à equipe do escritório da Cepal no Rio de Janeiro.

No final de 1967, foi um dos pesquisadores recrutados pela Unicamp para formar seu Departamento de Planejamento Econômico (Depe). Outros nomes ligados ao curso da Cepal haviam sido contratados, como Luiz Gonzaga Belluzzo, João Manuel Cardoso de Mello e Osmar Marchese. O Depe deu origem ao Instituto de Filosofia e Ciências Humanas (IFCH) da Unicamp, do qual, nos anos 1980, se desmembraria o Instituto de Economia. As reflexões sobre o desenvolvimento latino-americano feitas nos anos 1950 e 1960 pela Cepal foram o ponto de partida para a formação de uma escola de economia caracterizada pelo pensamento crítico em relação à teoria ortodoxa.

Concentração industrial

Em 1975, defendeu sua tese de doutorado, mostrando como as origens da concentração industrial no estado de São Paulo remontavam ao início do século XX, com a expansão cafeeira e o consequente desenvolvimento da economia no estado, e não a mudanças no padrão de acumulação de capital após a crise de 1929, como se avaliava correntemente. Publicado em forma de livro em 1977, Raízes da concentração industrial em São Paulo está atualmente na quinta edição.

“Wilson Cano foi um pesquisador exemplar”, define o economista Carlos Américo Pacheco, professor do IE-Unicamp, que teve Cano como orientador de sua tese de doutorado, concluída em 1996. “O livro Raízes da concentração industrial em São Paulo é um clássico. Revela, como poucos outros trabalhos, a relação entre a economia cafeeira, a indústria e a urbanização. Será sempre uma leitura obrigatória para quem quiser entender a economia paulista e o Brasil do início do século XX”, afirma Pacheco, que é diretor-presidente do Conselho Técnico-Administrativo da FAPESP.

Cano dirigiu o IFCH na segunda metade da década de 1970 e, entre 1990 e 1997, foi membro do Conselho Superior da FAPESP. Aposentado em 2008, seguiu dando aulas e orientando alunos de pós-graduação, vinculado ao Cede. Seu trabalho incorporou a preocupação com o desenvolvimento urbano e regional, área de pesquisa do Cede. Uma qualidade apontada por seus orientandos era a marcação cerrada feita para não deixar ninguém desistir – ele chegava a levar alunos para uma chácara de sua propriedade até terminarem de escrever. Wilson Cano deixa mulher, Selma Maria Schwarzer Cano, três filhos e seis netos.

 

Revista Fapesp

Link: https://revistapesquisa.fapesp.br/um-pensador-do-desenvolvimento-2/

TV Unicamp

O professor Wilson Cano, um dos criadores do Instituto de Economia (IE) da Unicamp, morreu nesta sexta-feira, 3 de abril. Neste programa, publicado originalmente em 2015, o professor fala sobre economia latino-americana, a discussão da pobreza e da má distribuição de renda, sobre o trabalho na Comissão Econômica para a América Latina e o Caribe (CEPAL). "Sou um economista que respeita muito a história, e sempre que estou raciocinando para um problema presente, ou pensando no futuro, eu olho o passado".

O economista menciona a influencia de Celso Furtado em sua vida e obra, e conta sobre a iniciativa de se formar um curso e, posteriormente, uma escola de economia em Campinas.  Wilson Cano destaca: "Tivemos uma conversa franca com Zeferino Vaz e ele nos deu carta branca. Rapidamente a área de economia de Campinas passou a ser reconhecida internacionalmente, ou seja, se fundava no Brasil uma escola crítica do pensamento econômico".

Sobre o início do curso de pós-graduação em economia, com apoio de Antônio Castro, Carlos Lessa e Maria da Conceição Tavares, na década de 1970, Wilson Cano afirma: "Lutamos contra a ditadura a nossa maneira, construímos um pensamento critico".

Confere agora alguns trechos que selecionamos da entrevista:

Sobre ditadura militar:

"Na economia nada é contínuo, as coisas são finitas. Tem o período de expansão e em algum dia pode surgir uma crise, foi o que aconteceu com a ditadura".

"Você dinamita a democracia quando se corrói a política e a justiça. Os militares conseguiram destruir três coisas importantes para o país; eles fizeram construções fantásticas, mas destruíram a educação brasileira, a política (destruindo as grandes lideranças e partidos) e destruíram as finanças do Estado".

Sobre o neoliberalismo:

"O neoliberalismo traz a perda do sentido de solidariedade social. O consumismo passou a ser uma religião, isso dilacera os laços de solidariedade na sociedade. O neoliberalismo é como um gás venenoso, penetra, contagia e mata, isso também influencia a academia".

Sobre a crise brasileira:

"A crise brasileira é uma crise de 30 anos, vem desde a década de 80, de mais de trinta anos, isso contamina qualquer sociedade".

Sobre a economia como ciência:

"É preciso se manter alerta e buscar a realidade, criticando a modelagem econométrica. Problemas sociais e econômicos transcendem tudo isso. Virou uma doença grave. Critiquem as simplificações grosseiras que a maioria dos modelos oferece na sua falsa interpretação da realidade".

No site do Instituto de Economia da Unica em destaque está a seguinte nota:

"É impossível exagerar a sua importância na criação e consolidação do nosso Instituto, além de seu papel fundamental na história da Unicamp. Formador de várias gerações de pesquisadores e professores Brasil afora, o prof. Wilson é figura maior na trajetória da qual somos todos herdeiros. Combatente das melhores causas até o fim da vida, fica para todos nós seu exemplo de dedicação ao Brasil e à Universidade, sua trajetória ímpar de intelectual e homem público, e os ensinamentos de sua vasta obra e incontáveis aulas ministradas".

Memória Científica: Wilson Cano


TV Unicamp

Link: https://www.youtube.com/watch?v=3sdXX1Qmyck&feature=youtu.be

Nota de Pesar - Falecimento do Professor Wilson Cano

 

Foi com tristeza que soubemos do falecimento do Professor Wilson Cano, Professor do Instituto de Economia da Unicamp, no dia 03/04/2020. Muitos colegas do IE-UFRJ conviveram com ele pessoalmente como alunos ou colegas. Muitos outros tiveram a oportunidade de conhecer sua vasta obra e suas contribuições para a análise da economia brasileira e latino-americana. Elas estão presentes nas obras escritas do Prof. Cano e também nos conhecimentos transmitidos por ele a diversas gerações de economistas.

É com consternação e com a certeza de que o pensamento estruturalista perde um de seus grandes representantes que manifestamos nossa solidariedade e pêsames à sua família e aos colegas do Instituto de Economia da Unicamp.

 

 

Instituto de Economia da UFRJ

Link: https://www.ie.ufrj.br/pesquisa-j/normas-e-documentos/2-uncategorised/87-nota-de-pesar-falecimento-do-professor-wilson-cano.html​

Morre Wilson Cano, pesquisador emérito do CNPq e um dos criadores do Instituto de Economia

Morreu nesta sexta-feira (03), aos 83 anos, o professor Wilson Cano, pesquisador emérito do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) e um dos criadores do Instituto de Economia da universidade. Formado em economia pela PUC de São Paulo, Cano chegou à Unicamp em 1968, convidado pelo reitor Zeferino Vaz. Desde então, dedicou-se em tempo integral à carreira, tendo publicado diversos livros, principalmente sobre industrialização Brasileira. O velório será restrito aos familiares, em Campinas.

 

Em nota, a direção do Instituto de Economia lamentou a morte do professor:

“É impossível exagerar a sua importância na criação e consolidação do nosso Instituto, além de seu papel fundamental na história da Unicamp. Formador de várias gerações de pesquisadores e professores Brasil afora, o prof. Wilson é figura maior na trajetória da qual somos todos herdeiros. Combatente das melhores causas até o fim da vida, fica para todos nós seu exemplo de dedicação ao Brasil e à Universidade, sua trajetória ímpar de intelectual e homem público, e os ensinamentos de sua vasta obra e incontáveis aulas ministradas. À família e amigos, o IE manifesta os mais profundos sentimentos neste momento difícil.

Recebam nosso abraço fraterno e toda nossa solidariedade.

 

Leia reportagem que descreve trajetória de Wilson Cano, publicada no Jornal da Unicamp:

A economia bem-temperada de Wilson Cano

 

E neste vídeo, publicado originalmente em 2015, o professor fala sobre economia latino-americana, a discussão da pobreza e da má distribuição de renda, sobre o trabalho na Comissão Econômica para a América Latina e o Caribe (CEPAL), ditadura militar e sobre as políticas neoliberais.

 

"Sou um economista que respeita muito a história, e sempre que estou raciocinando para um problema presente, ou pensando no futuro, eu olho o passado".

 

 

UNICAMP

Link: https://www.unicamp.br/unicamp/noticias/2020/04/04/morre-wilson-cano-pesquisador-emerito-do-cnpq-e-um-dos-criadores-do-instituto

Homenagens no Twitter

 

 

unicampoficial @unicampoficial · 4 de abr

A #Unicamp lamenta o falecimento do professor Wilson Cano. Formado em economia pela PUC de São Paulo, o docente chegou à #Unicamp em 1968, convidado pelo reitor Zeferino Vaz.

 

Roberto Requião @requiaopmdb · 4 de abr

Wilson Cano, conheci no forum de crítica e análise da crise de 2008 2009 em Curitiba. Sujeito extraordinário , economista cirúrgico, grande colaboração para que entendesse-mos o que acontecia no mundo. Inesquecível.

 

José Serra @joseserra_

Soube hoje da morte do economista e professor  Wilson Cano. Deixa uma importante obra de história econômica. Quando regressei ao Brasil do exílio, em 1977/78, ele me convidou para integrar o Instituto de Economia da Unicamp, do qual era diretor. Segue a nota do Instituto:

“É impossível exagerar a sua importância na criação e consolidação do nosso Instituto, além de seu papel fundamental na história da Unicamp. Formador de várias gerações de pesquisadores e prof. Brasil afora, o prof. Wilson é figura maior na trajetória da qual somos todos herdeiros.

Combatente das melhores causas até o fim da vida, fica para todos nós seu exemplo de dedicação ao Brasil e à Universidade, sua trajetória ímpar de intelectual e homem público, e os ensinamentos de sua vasta obra e incontáveis aulas ministradas.”

 

José Graziano da Silva @grazianodasilva · 4 de abr

Muito triste pelo falecimento do meu amigo e professor Wilson Cano, além  de colega durante todos os meus anos de .

Lamento não poder ir dar um ultimo abraço nele

@unicampoficial

 

IFCH-Unicamp @IFCH_Unicamp · 4 de abr

Unicamp perde aos 83 anos Wilson Cano, professor do Instituto de Economia (IE) e ex-diretor do Instituto de Filosofia e Ciências Humanas

 

Cedeplar UFMG @Cedeplar · 4 de abr

O Cedeplar lamenta profundamente o falecimento do Professor Wilson Cano. Guardaremos lembranças de sua perspicácia e inteligência, de sua busca pela justiça social, seja por sua contribuição acadêmica, seja na formulação de políticas públicas.

@andrebiancarell @unicampoficial

Homenagens no Facebook

Centro de Estudos do Desenvolvimento Econômico

3 de abril

 

OS PROFESSORES DO CENTRO DE ESTUDOS DE DESENVOLVIMENTO ECONÔMICO DO INSTITUTO DE ECONOMIA DA UNICAMP (CEDE/UNICAMP) COMUNICAM, COM IMENSO PESAR, O FALECIMENTO DO EMINENTE COLEGA PROF. DR. WILSON CANO

É com profunda tristeza que comunicamos o falecimento, no dia de hoje, do Prof. Dr. Wilson Cano, eminente colega do Instituto de Economia, grande mentor do CEDE, formador de centenas de alunos de graduação e pós-graduação e amigo generoso.

Mais que relembrar minuciosamente o currículo muito extenso de um professor e pesquisador, a quem foi outorgado o destacado prêmio Pesquisador Emérito do CNPq (2008), permitimo-nos manifestar aqui um sentimento de gratidão para com o Prof. Wilson. Gratidão pelo notável trabalho de professor, pesquisador, militante em múltiplos foros, amigo e conselheiro, formador.

Sim, FORMADOR, em sucessivos degraus: i. sua defesa, no ensino de graduação, da responsabilidade do economista em países subdesenvolvidos; ii. a amplitude e interdisciplinaridade de seus cursos de pós-graduação; iii. como pesquisador, o caráter imperioso da opinião fundada, da observação pessoal, do trabalho meticuloso com a informação.

O exame dos livros e artigos de periódicos da lavra do Prof. Cano permite que se destaque grande diversidade temática: desde logo, plano nacional de desenvolvimento, questões regionais e urbanas, São Paulo em particular (múltiplos aspectos), Campinas e Região Metropolitana de Campinas, e avaliações sobre a América Latina em diferentes épocas (inclusive em periódicos internacionais). Sua obra escrita e a concepção programática de suas aulas são referência nacional e largamente utilizados em cursos de Economia Brasileira, Desenvolvimento Econômico e Economia Regional e Urbana por todo o Brasil e no exterior.

Outros resultados de sua docência, eminentemente formativa, foram as orientações de mais de sessenta pós-graduandos, afora a participação em bancas na Unicamp e em outras instituições brasileiras. Dito de outra forma, e sem forçar expressão, do Amazonas ao Rio Grande do Sul encontram-se alunos seus, orientandos aos quais ajudou a sistematizar quadros analítico-históricos das economias desses Estados. Profissionais que - vários deles - estabeleceram ou fortaleceram programas e disciplinas nas áreas de economia regional e urbana em instituições de suas regiões.

A história da trajetória do Prof. Wilson na Unicamp, iniciada em 1968, confunde-se com a história de nossa Universidade. Nesse ano, era implantado o Departamento de Planejamento Econômico e Social no IFCH ,e Wilson Cano participava de um grupo de professores que buscava agregar visões renovadoras para questões basilares relacionadas com a economia brasileira, como também sonhar com um curso de economia que transmitisse aos jovens outra visão de Brasil e América Latina, cujos complexos problemas demandavam categorias de análise críticas, para a sua adequada caracterização e para a formulação de políticas públicas. O que significava também um esforço de denúncia da economia política dos “milagres” econômicos latino-americanos nos anos sessenta e setenta.

O forte compromisso do Prof. Wilson com a história e os valores da Unicamp estiveram presentes, em anos recentes, em duas engajadas participações. Na primeira delas, com a Comissão da Verdade e Memória “Octávio Ianni”. Na segunda, com a “Comissão Unicamp Ano 50”, que foi responsável por grande riqueza de atividades acadêmicas e culturais a partir de outubro de 2015.

Como economista, Wilson Cano encabeçou o “Movimento de Renovação dos Economistas” nos oitenta; ajudou a consolidar, defendeu e colaborou com o Conselho Federal de Economia; o Conselho Regional de Economia/SP; a Associação dos Economistas de Campinas. Na UNICAMP, na ADUNICAMP e em outros foros defendeu a importância da universidade pública e de sua autonomia para a sociedade brasileira.

Ao longo de anos, sua palavra voltava sempre a ser ouvida nos debates políticos, em jornais militantes, na subscrição de manifestos, onde imperavam sua retidão, coragem pessoal, manutenção de posições progressistas e de defensor nacionalista de um Brasil soberano. Em sua sala de trabalho, muitos o procuravam para entrevistas, com frequência por telefone.

Do alto de seus oitenta e dois anos, e após dois episódios clínico-cirúrgicos muito graves, o guerreiro não se abatia. Ofereceu à comunidade acadêmica nacional não só o acesso digitalizado ao acervo de seus livros, artigos, palestras, como também a possibilidade de interagir com seus leitores.

Não deixemos de lembrar igualmente as facetas descontraídas de mestre Wilson, das conversas nos bares e pizzarias - os históricos Giovanetti I, Sancho Pança, Coxinha em Campinas, locais onde o sangue espanhol podia eventualmente ferver se o Corínthians fosse criticado.

Em mais de um de seus escritos, o Prof. Wilson afirmou que Celso Furtado – a quem muito admirava - era um eminente BRASILEIRO, SERVIDOR PÚBLICO e ECONOMISTA, com letras maiúsculas. Cremos ser adjetivação talhada para o nosso também eminente colega.

Foi uma imensa satisfação para gerações de professores, estudantes e funcionários em cinco décadas de Unicamp, aprender com esse grande Mestre e contar com a sua amizade.

Aos queridos familiares, que estão sofrendo o impacto do falecimento súbito, expressamos os nossos sentimentos, o nosso grande abraço, e também nossos agradecimentos, pois são pessoas que sempre ajudaram a tornar a residência do Prof. Wilson um segundo lar para cada um de nós.

Campinas-SP, 03 de abril de 2020.

Cláudio Schuller Maciel

Fernando Cezar de Macedo

Humberto Miranda do Nascimento

Carlos Alberto Cordovano Vieira

Eduardo Barros Mariutti

Fábio Antonio de Campos

Mariana de A. Barretto Fix

 

Link: https://www.facebook.com/cedeie/posts/3035978339800677

 

 

 

CAECO - IE/Unicamp

4 de abril

[NOTA DE PESAR]

O Centro Acadêmico da Economia lamenta profundamente o falecimento do professor Wilson Cano. Além de professor, Cano foi um dos fundadores do Instituto de Economia (IE), tendo passado boa parte de sua vida se dedicando ao estudo do desenvolvimento econômico no Brasil e na América Latina. Também ajudou a criar o CEDE (Centro de Estudos de Desenvolvimento Econômico), um dos departamentos do IE. Mesmo aposentado, Cano continuou a trabalhar como professor colaborador, demonstrando a grande paixão pela pesquisa e docência.

 

É impossível falar da trajetória do Instituto de Economia sem falar de Wilson Cano. Além de seu famoso livro de Introdução à Economia, usado por boa parte dos ingressantes no primeiro ano da graduação, Cano também deu importantes contribuições acadêmicas na área de planejamento, desenvolvimento e industrialização, ajudando a pensar um Brasil menos dependente e mais desenvolvido. A consolidação do Instituto de Economia como escola heterodoxa do pensamento econômico sem dúvidas passa pela responsabilidade desse grande pensador.

 

Sr. Wilson Cano se foi, mas suas contribuições continuam atuais. Em tempos sombrios como esse, é fundamental recorrermos a economistas que ousaram pensar e planejar um país diferente, atacando diretamente nossos principais problemas históricos e a necessidade de superá-los como forma de atingir o pleno desenvolvimento das forças produtivas. Seu legado continuará vivo e necessário, inspirando futuros economistas e novas políticas econômicas.

 

“Eu não sei fazer outra coisa a não ser um pesquisador e um professor”

Wilson Cano (1937-2020)

Centro Acadêmico da Economia (CAECO-IE/Unicamp)

Campinas, 4 de abril de 2020

 

Link: https://www.facebook.com/caeco/posts/2495293864053979

 

 

 

ABED-Associação Brasileira de Economistas pela Democracia

4 de abril

Os membros da Associação Brasileira de Economistas pela Democracia (ABED) manifestam o pesar e dor pelo falecimento do professor Wilson Cano.

O grande mestre reside no coração e mentes de economistas de diversas gerações do nosso país.

Professor Wilson Cano era e sempre será sócio benemérito da ABED, titulo concedido em 6/12/2019, no auditório da PUC/SP.

 

A Direção do Instituto de Economia da Unicamp informa, com enorme pesar, o falecimento do prof. Wilson Cano, na tarde deste 03 de abril de 2020.

 

É impossível exagerar a sua importância na criação e consolidação do nosso Instituto, além de seu papel fundamental na história da Unicamp. Formador de várias gerações de pesquisadores e professores Brasil afora, o prof. Wilson é figura maior na trajetória da qual somos todos herdeiros. Combatente das melhores causas até o fim da vida, fica para todos nós seu exemplo de dedicação ao Brasil e à Universidade, sua trajetória ímpar de intelectual e homem público, e os ensinamentos de sua vasta obra e incontáveis aulas ministradas.

 

À família e amigos, o IE manifesta os mais profundos sentimentos neste momento difícil. Recebam nosso abraço fraterno e toda nossa solidariedade.

 

Link: https://www.facebook.com/abed.economistaspelademocracia/posts/1632437583591016

 

 

 

Sociedade Brasileira de Economia Política (SEP)

6 de abril

Nota de pesar

 

A Sociedade Brasileira de Economia Política (SEP) manifesta seu imenso pesar pelo falecimento do Prof. Wilson Cano, em 3 de abril de 2020. Em mais de cinco décadas de docência, Cano está entre aqueles que mais contribuíram para o ensino de Economia Política no Brasil. Em decorrência, universidades de todas as regiões do país contam hoje com docentes que foram seus orientandos ou alunos. Como pesquisador, Cano deu contribuições inestimáveis aos estudos sobre o capitalismo brasileiro e latino-americano, desenvolvimento regional, industrialização e desindustrialização, dentre tantos outros temas que fizeram parte de seu vasto repertório de investigações. Como militante, participou ativamente de debates sobre a economia brasileira e defendeu de forma incansável a universidade pública. Aliando extremo rigor com uma ilimitada generosidade, Cano deixa saudades, admiração e gratidão em todo/as o/as que tiveram o privilégio de com ele conviver. Acima de tudo, deixa o exemplo de coerência e combatividade. As decepções em relação aos rumos do país e da universidade pública não o calaram, mas fortaleceram seu espírito crítico e guerreiro, até o fim de sua vida.

 

Aos familiares, amigos, alunos e ex-alunos do Prof. Cano, manifestamos nossa solidariedade.

 

Diretoria da Sociedade Brasileira de Economia Política (SEP)

4 de abril de 2020

 

Link: https://www.facebook.com/sociedadebrasileiradeeconomiapolitica/posts/2632211693513496/

 

Eduardo Rodrigues da Silva

4 de abril

A Ange (Associação Nacional dos Cursos de Graduação em Economia) lamenta a partida de um de seus fundadores, nosso querido Professor Wilson Cano.

 

Wilson Cano era professor titular do Instituto de Economia da Unicamp, tendo sido um de seus fundadores, e um dos mais importantes economistas de sua geração. O Professor deixa como legado um vasto conjunto de publicações nas temáticas do Desenvolvimento Econômico e da Economia Regional.

 

O Professor, que continuava a colaborar com o Instituto de Economia, deixará saudades em seus inúmeros alunos e orientandos, muitos dos quais hoje professores universitários de todas as regiões brasileiras. Exemplo de retidão moral e de amor à docência, o Professor permanecerá presente na lembrança de todos os que tiveram a honra de conhecê-lo.

 

Nossas sinceras condolências e afeto à família e amigos, de seus companheiros da Ange.

 

Link: https://www.facebook.com/groups/171253573047583/permalink/1385318478307747/

 

André Bojikian Calixtre

3 de abril

Wilson Cano era um grande professor. Dentre os maiores que conheci. Abriu fronteiras entre as disciplinas de Economia e Geografia. Escreveu diversos clássicos sobre a industrialização e desenvolvimento regional. Conhecia a teoria do desenvolvimento como poucos. É autor do melhor livro de introdução à economia, independentemente do idioma.

 

Também era uma figura ímpar. Andava em um carrão velho que não sei se chegou a trocar antes de morrer. Tinha uma bengala companheira que erguia sobre as cabeças dos alunos quando estes teimavam em contestá-lo. A bengala era tão temida que foi a única vez que vi a professora Maria da Conceição Tavares recuar em uma discussão pública, por causa dela. Depois fez uma cirurgia na perna que o fez aposentar a peça. Chamava seus alunos pelo nome desde a primeira aula.

 

Era getulista roxo, nacionalista até os ossos. Amava Celso Furtado como se fosse filho dele. Nunca gostou de aplausos ou elogios. Sempre, sempre mesmo, leu com rigor e detalhe as incontáveis monografias, dissertações e teses das quais foi banca. Era conhecido pela exigência como orientador, às vezes ultrapassava seus limites na definição dos temas de pesquisa de seus orientandos. Nunca fazia pesquisa sozinho, era um grande coordenador de projetos estruturantes na área de desenvolvimento regional.

 

Formou uma incontável legião de pesquisadores desenvolvimentistas, durante pelo menos três gerações e em todas as regiões do Brasil. É, sem dúvida, o principal responsável pela força do Instituto de Economia da Unicamp para além de Campinas. Viveu a Universidade em seu sentido mais profundo. Foi mesmo um Professor.

 

Meu último encontro com ele foi no lançamento de um dos livros que comemora os 70 anos da CEPAL. Coube ao professor Cano comentar os capítulos do livro. Como esperado, trouxe debaixo do braço o livro impresso todo rabiscado. Cano já estava bastante debilitado após tratamento contra câncer, magro e de semblante transcendente. Tive a honra de ser um dos autores dos capítulos que ele deveria comentar. Como sempre, foi uma aula inesquecível.

 

Link: https://www.facebook.com/calixtre/posts/2781485278635881

 

Marcos Vinicius Chiliatto Leite

3 de abril

Que triste notícia, faleceu o Prof. Wilson Cano.

Nessas fotos, de ago/2019, Cano comenta nosso livro em uma fria noite na Unicamp. Não apenas aceitou o convite para debater, como leu e comentou minuciosamente os capítulos.

Cano, mestre de todos nós, dedicou sua vida à Universidade pública e ao desenvolvimento. Ensinou gerações. Mesmo depois de aposentado, sempre ia para a Universidade.

Nota pessoal: decidi estudar América Latina depois de ler “Soberania e política econômica na América Latina”. Até hoje tenho dedicado minha vida a pensar o desenvolvimento dessa região.

 

Link: https://www.facebook.com/marcos.vinicius.chiliatto/posts/10157296632245698

 

Ruy Braga

3 de abril

Wilson Cano fez parte de uma geração de intelectuais que ousou pensar e desejar um Brasil livre e soberano a partir de um processo democrático e radical de industrialização com distribuição de renda. Um tipo de desenvolvimento econômico que jamais tivemos por aqui. Elaborador de uma escola crítica do pensamento econômico, suas ideias, projetos, ensinamentos e estímulos farão muita falta.

 

Link: https://www.facebook.com/ruy.braga1/posts/3095175567193767

 

Marcelo Introini

4 de abril

O dia anoiteceu, ontem, com uma triste notícia. Infelizmente, perdemos o prof. Wilson Cano, do Instituto de Economia da Unicamp.

 

Guardião da consciência acerca da importância do Estado no processo de desenvolvimento nacional, lecionava, até os últimos meses, por puro e simples desejo de dedicar-se à formação daqueles que seriam responsáveis pelas lutas do país que ele nos deixaria.

 

Foi e será norte e inspiração de uma leva de economistas que, trilhando seu legado, não se contentaram e não se contentarão com o curtoprazismo e o desprezo pelas outras ciências humanas - comportamentos que, lamentavelmente, conquistaram, sob a égide do neoliberalismo, os corações e as mentes de uma grande maioria.

 

De um relato mais particular, foi uma honra não só ter convivido com o professor em 2017, cursando disciplina parcialmente ministrada por ele, como ter percebido que ouvir os seus temidos pareceres e correções, era, no fundo, ter acesso a alguém cujo dom era fazer refletir além do óbvio.

 

Wilson Cano, mais do que um excelente professor, foi resistência, foi referência, foi um mestre que nos inspirou a ter devoção pelo nosso povo.

 

Link: https://www.facebook.com/100000588701298/posts/3366774773352113/

 

 

Luiz Gonzaga Belluzzo

4 de abril

 

Wilson Cano, Saudades do amigo e companheiro de muitas batalhas.

 

Luiz Gonzaga Belluzzo

 

Corria o Ano de 1966. Nos tempos e contratempos da ditadura civil-militar, o então Secretário de Educação do Município de São Paulo, Fausto Castilho, cuidou de convocar para terras paulistanas o

Curso de Desenvolvimento Econômico da Cepal/Ilpes. Era um intensivão, aulas o dia inteiro, uma prova atrás da outra. Wilson deu aula de projetos. Quando o curso terminou o Antônio Barros de

Castro, magnífico professor, disse para o Wilson Cano: “você vai para a Cepal”. Wilson tomou. Então, uma decisão temerária: me convidou para substituí-lo na Universidade Católica.

 

Em 1967 surgiu o convite do reitor Zeferino Vaz, através do Fausto Castilho. Estávamos convocados criar o departamento de Planejamento Econômico.

 

O Zeferino tinha um espírito muito criativo e inovador. Embarcamos na aventura, João Manuel Cardoso de Mello, Fausto Castilho, Ferdinando Figueiredo Lucas Gamboa, Osmar Marchese, Éolo Pagnani, nosso Wilson Cano e o criado que ora vos fala.. Fundamos o Departamento de Economia e Planejamento Econômico, o DEPE. Depois tornou-se DEPES - Planejamento Econômico e Social, na UNICAMP. O Zeferino teve a coragem de entregar isso a garotos de idade entre 24 e os 30 anos de Wilson, fora os 40 ou quase do decano Ferdinando Figueiredo.

 

Chegaram depois, já nos anos 70, Conceição, Lessa, Castro, Luciano Coutinho, Braga, Liana, Alonso, Paulo Baltar, Jorge Miglioli, Sérgio Silva. Um pouco mais tarde, o grande amigo dos amigos, Frederico Mazzuchelli.

 

Juntos tivemos a ventura de assistir ao desenvolvimento intelectual e físico da UNICAMP. Acompanhamos todo o crescimento da UNICAMP e a transformação da universidade no que é hoje. Tivemos a ventura de ver nascer, crescer, se desenvolver, se diferenciar. Eu falo nós porque fomos nós mesmos. Eu não gosto de falar na primeira pessoa porque não é o caso e nem a verdade.

 

Homenagear meu amigo exige examinar e celebrar a obra coletiva que ajudou a construir.

 

O trabalho intelectual desenvolvido no Instituto de Filosofia e Ciências Humanas, pelos professores fundadores do DEPES, sempre foi coletivo. As teses foram discutidas coletivamente, tanto as de doutoramento como as de livre-docência. Havia um ambiente de debate muito intenso dentro do instituto, e as teses foram todas feitas em torno desses dois temas: o desenvolvimento do capitalismo contemporâneo e a situação da economia brasileira nesse processo. Nenhuma das pesquisas, na verdade, escapou desse marco. Entre elas estava o livro de Wilson que considero um exemplo impecável do pensamento cepalino-unicampista: Raizes da Concentração Industrial em São Paulo. Sua obra é vasta e sua visão esteve sempre concentrada nas questões que incomodam os pensadores dedicados à investigação da trajetória brasileira nos marcos dos movimentos do capitalismo global. Wilson, sem dúvida, é, sim, um dos principais arquitetos do “pensamento da Unicamp”. Certamente ele concordaria que precisamos ser mais modestos. O que temos é uma linha de investigação que singularizou, ao longo da história, o Instituto de Economia. Essa linha, digamos, mais influenciada pelo paradigma da economia política, da história econômica e social, nos levou ao debate público.

 

Na verdade, até hoje, os vários núcleos do Instituto de Economia continuam desenvolvendo essas linhas de pesquisa. Nossa abordagem é – e sempre foi – histórico-teórica, um esforço de revisão deve ser permanente. Não cristalizamos uma matriz teórica definitivamente, a não ser a orientação geral de que a economia é uma ciência histórica, social e moral. Portanto, a teoria está sempre sujeita aos efeitos e às influências da mudança nas condições em que ocorre a vida econômica. Rejeitamos essa idéia de que nós temos uma matriz teórica imutável, a partir da qual possam ser explicadas todas as transformações que ocorrem no capitalismo e na sociedade contemporânea.

 

Uma estória talvez ajude a compreender a aventura coletiva. Em 1973 organizamos na Universidade o seminário Desenvolvimento e Progresso Técnico. Convidamos vários professores do exterior - Paolo Sylos Labini, Josef Steindl, Vladimier Brus, Edward Nell. Na sessão de encerramento, os estrangeiros foram para a mesa.

 

Ficamos sentados nas primeiras fileiras: Antonio Barros de Castro, João Manuel Cardoso Mello, Ferdinando, Wilson Cano e eu. Na mesa, Zeferino cochichou algo para o Labini. Labini começou a rir e não sabíamos por quê. Encerrado o seminário, o convidei para jantar em São Paulo na Baiuca. Perguntei por que era tão divertido o que havia dito o reitor. Labini me contou às gargalhadas: “Está vendo aqueles ali? São todos comunistas, mas são bons”.

 

Link: https://www.facebook.com/blogdobelluzzo/posts/2614646595472142

 

Pedro Rossi

3 de abril

 

Tristeza imensa. Eu tinha muito carinho pelo professor Wilson Cano. Era uma pessoa generosa, engajada, inconformada com a realidade, comprometida com o tema do desenvolvimento economico brasileiro. Foi um dos fundadores do IE/Unicamp e deixou um legado gigante: livros, artigos e centenas de alunos que hoje estão por todo o Brasil passando adiante o que o mestre ensinou. Vai fazer falta.

 

Link: https://www.facebook.com/pedrolrossi/posts/10156999182707890

 

Pedro Paulo Zahluth Bastos

3 de abril

Sem palavras, a não ser que o exemplo do professor Wilson Cano deve guiar e reforçar nossa luta por um país melhor. A esposa, dona Selma, está serena. Infelizmente as circunstâncias exigem um velório restrito aos familiares.

 

Deixo aqui a mensagem da Direção do Instituto de Economia da Unicamp.

 

***

 

A Direção do Instituto de Economia da Unicamp informa, com enorme pesar, o falecimento do prof. Wilson Cano, na tarde deste 03 de abril de 2020.

 

É impossível exagerar a sua importância na criação e consolidação do nosso Instituto, além de seu papel fundamental na história da Unicamp. Formador de várias gerações de pesquisadores e professores Brasil afora, o prof. Wilson é figura maior na trajetória da qual somos todos herdeiros. Combatente das melhores causas até o fim da vida, fica para todos nós seu exemplo de dedicação ao Brasil e à Universidade, sua trajetória ímpar de intelectual e homem público, e os ensinamentos de sua vasta obra e incontáveis aulas ministradas.

 

À família e amigos, o IE manifesta os mais profundos sentimentos neste momento difícil. Recebam nosso abraço fraterno e toda nossa solidariedade.

 

Link: https://www.facebook.com/ppzbastos/posts/2835134716572199

 

Marcio Pochmann

4 de abril

Perdi um Mestre, com M maiúsculo. Professor Wilson Cano, brasileiro incansável, passou pela vida, deixou o legado. Base sólida do pensamento estrutural da Escola de Economia de Campinas, sucessor de Celso Furtado. Companheiro de todas as lutas. De quem acredita que outro Brasil tão necessário quanto possível.

 

Link: https://www.facebook.com/permalink.php?story_fbid=923142698140092&id=100013331100514

Profa. Beatriz Mioto

3 de abril de 2020

Estive com o Cano no dia 02 de fevereiro e conversei com ele brevemente ontem. Pedi para me ajudar em um artigo. Ele, no auge dos seus 80 e tantos anos, prontamente me atendeu. Sempre tinha paciência para minhas visitas, ele e Selminha, com a mesa posta e sempre dizendo: "eu parei de beber, mas vc quer uma cerveja?". Depois que terminei minha tese, em 2015, fui inúmeras vezes visitá-lo. Na chácara das Amoreiras e até no hospital, onde ele passou um tempo difícil. Eu brincava que era o momento de renovar meu pessimismo no mundo, mas também de renovar a certeza das contribuições que os intelectuais sérios podem dar a um país. Estranhamente, diante das tragédias econômicas e políticas dos últimos anos, era assim que eu renovava as esperanças, olhando nos olhos do meu maior mestre e de um dos professores mais íntegros que tive o prazer de conhecer. Cano, você fará falta. Espero ter aprendido o que eu podia com você. O que não pude, continuarei correndo atrás.

Maria Fernanda Cardoso

Caro Newton,

Tive o privilégio de ter feito alguns cursos de pós graduação com o prof. Wilson Cano, de ter aprendido e convivido com sua integridade, indignação e ensinamentos. Ele fez parte de minha formação intelectual. Um Mestre.

A última vez que conversei com ele foi em 2017 na saída de uma aula da profa. Laura Tavares, no IE. Ele estava animado, contou-me sobre sua saúde e as confusões no diagnóstico e, também, sobre a situação política na época. Foi uma conversa ótima, daquelas que você sai com uma sensação leve, apesar dos temas difíceis.

A última vez que o vi, em outubro de 2018, eu havia passado de carro para ir à escola do Guará para meu marido votar, e o vimos caminhando, perto da padaria do Guará, andava devagar,com dificuldades, magro e, provavelmente, tinha ido votar. Aquela cena me emocionou demais. E foi a última vez que o vi. 

Receba meu carinho e um abraço apertado que, peço, transmita à sua mãe, seu irmão e à toda sua família.

https://www.facebook.com/100001955548682/posts/3543509229057560/


 

Criado em 23 de julho de 2019 por Wilson Cano